quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O FIO DA SUSPEITA

O FIO DA SUSPEITA (Jagged edge, 1985, Columbia Pictures, 108min) Direção: Richard Marquand. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Sean Barton, Conrad Buff. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Peter J. Smith. Produção: Martin Ransohoff. Elenco: Glenn Close, Jeff Bridges, Peter Coyote, Robert Loggia, Lance Henriksen, James Karen, Marshall Colt. Estreia: 05/9/85 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Loggia)

A cena é típica: em uma mansão à beira-mar de São Francisco, uma mulher é surpreendida durante o sono por um homem vestido com uma máscara que lhe esconde o rosto. Violentamente, o invasor a mata a facadas, mutilando-a e utilizando seu sangue como tinta, para escrever na parede uma ofensa final. Assim começa o filme "O fio da suspeita", do mesmo Richard Marquand que também dirigiu o ultra bem-sucedido "O retorno de Jedi" (83), e se a sequência parece familiar é porque seu criador é o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem", realizado em 1992. Usando os mesmos elementos que usaria para escrever o maior sucesso de sua carreira - uma boa história, personagens interessantes e reviravoltas até os últimos minutos - Eszterhas conquistou o público, graças à elegância da direção de Marquand (em seu penúltimo filme) e ao elenco impecável, que dá credibilidade e legitimidade a uma trama policial que, mesmo sem maiores novidades, prende o espectador de seu instigante começo até o desfecho climático - que, ao contrário do que foi dito à época de seu lançamento, não foi alterado e sim tornado mais claro depois das primeiras exibições.

No filme, a vítima da primeira cena é a milionária Page Forrester, que morre e deixa toda a sua fortuna para o marido, Jake (Jeff Bridges), que, logicamente, passa a ser o principal suspeito do crime. Quando uma faca similar à arma do crime é encontrada em seu armário no clube, Jake é imediatamente indiciado e somente uma boa defesa pode impedí-lo de uma condenação pelo júri popular. Entra em cena então a competente Teddy Barnes (Glenn Close), que abandonou o Direito Penal depois de uma decepção profissional, mas que acaba seduzida pelo charme irresistível do réu. Enquanto trabalha na defesa do jovem milionário, Teddy entra em confronto com o venal promotor Thomas Krasny (Peter Coyote) - com intenções de ascender politicamente graças ao caso - e se vê envolvida sentimentalmente pelo cliente, que jura inocência. Para deixar tudo ainda mais confuso, Teddy começa a receber bilhetes anônimos, escritos à máquina e que afirmam a inocência do acusado.


Confiante em seu elenco e na história que tinha em mãos, Richard Marquand acertou em cheio em não tentar inventar a roda, preferindo apostar em uma narrativa linear e simples, pontuada aqui e ali com algumas surpresas para manter o interesse do público e o ritmo da trama. Equilibrando com maestria tanto o lado romântico do enredo quanto seu ângulo policial, o cineasta explora com inteligência o talento de seus dois protagonistas, ambos com atuações sutis e que deixam espaço para o brilho de seus colegas de cena - que o diga Robert Loggia, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho como Sam Ransom, investigador que auxilia Teddy em sua busca pela verdade. Também optando por uma interpretação sem excessos, Loggia quase rouba a cena, com um personagem à margem de todo o jogo de poder e sedução que se desenrola à sua volta. O mesmo pode ser dito de Peter Coyote, que mesmo com um personagem um tanto clichê em mãos, o transforma em uma pessoa de carne e osso. Glenn Close - em papel oferecido a Jane Fonda e Kathleen Turner e que quase foi rejeitada pelo produtor Martin Ransohoff por ser considerada feia - está elegante e sóbria, transmitindo todas as nuances de sua personagem antes de encarar as duas vilãs que marcariam sua carreira (e lhe dariam indicações ao Oscar), em "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88). E Jeff Bridges, no personagem mais sedutor de sua carreira, segura com unhas e dentes o personagem dúbio herdado de Michael Douglas - coincidentemente ou não, o protagonista de "Instinto selvagem".

Inteligente, elegante e dotado de todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de filmes policiais passados em tribunais, "O fio da suspeita" agrada a qualquer espectador que se disponha a acompanhar uma história bem contada, com atores competentes e um final coerente e lógico. Sem apelar para as estripulias eróticas de "Instinto selvagem" e "Jade" (95), seus filmes mais famosos, Eszterhas brinda a plateia com um roteiro coeso e fluente, que jamais perde o foco e de quebra mantém o suspense mesmo quando tudo parece se encaminhar para o óbvio. Seu final - que pode ou não agradar aos mais exigentes - pode não ser brilhante, mas pelo menos não ofende a inteligência do público como muitos suspenses que se pretendem surpreendentes e acabam por cair no inverossímil. Um belo filme policial dos anos 80 que sobrevive muito bem ainda hoje.

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