quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

LOUCOS DE PAIXÃO

LOUCOS DE PAIXÃO (White palace, 1990, Universal Pictures, 103min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ted Tally, Alvin Sargent, romance de Glenn Savan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Carol Littleton. Música: George Fenton. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeannine C. Oppewall/Lisa Fischer. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson, Mark Rosenberg. Elenco: Susan Sarandon, James Spacer, Jason Alexander, Kathy Bates, Eilleen Breenan, Maria Pitillo, Jeremy Piven. Estreia: 19/10/90

A trama não é das mais surpreendentes ou criativas: jovem viúvo rico e judeu se apaixona por uma mulher mais velha, experiente e de classe social inferior e o romance entre os dois esbarra nas dificuldades inerentes a esse tipo de relacionamento. Por que, então, "Loucos de paixão", baseado no livro de Glenn Savan, soa tão especial ao público? Será por causa do roteiro enxuto de Ted Tally - que veria seu "O silêncio dos inocentes" sair com um Oscar no ano seguinte? - e Alvin Sargent - veterano vencedor de duas estatuetas, por "Julia" (77) e "Gente como a gente" (80) - que se mantém acima do melodrama barato, circundando-o com uma atmosfera de verossimilhança extremamente bem-vinda?  Ou será sua dupla de atores centrais, Susan Sarandon e James Spader, cujos talentos conseguem fazer poesia até dos diálogos mais banais? Talvez seja a reunião de todos os ingredientes, mas o fato é que o filme de Luis Mandoki é um dos dramas românticos mais interessantes de seu tempo, mesmo que não tenha tido o reconhecimento devido nas cerimônias de premiação.

Susan Sarandon, em vias de tornar-se uma das atrizes mais queridas, requisitadas e premiadas atrizes de sua geração - bônus por seu desempenho excepcional em "Thelma & Louise" (91) - vive Nora Baker, uma garçonete de 43 anos de idade que tem no passado a trágica morte do filho. Uma noite, depois do confronto com um cliente que chega à lanchonete onde ela trabalha reclamando do atendimento, ela o reencontra em um bar, bêbado e pouco disposto a conversa. O rapaz, Max Baron (James Spader em papel que quase ficou com Robert Downey Jr.), tem 27 anos, também tem um histórico de perdas - sua mulher morreu em um acidente de carro há pouco tempo - e acaba indo com ela para sua casa. O choque de gerações, de culturas e até mesmo de modos de viver - ele é inflexivelmente rígido a padrões de higiene, por exemplo, e ela mora em um lugar pouco asseado e sem maiores preocupações quanto a isso - não o impede de dormir com ela, depois de um longo período sabático. Aos poucos, apesar das diferenças, os dois se apaixonam, mas ele não sente-se à vontade em apresentar a simples e desbocada Nora à sua família e seus amigos.


A história de "Loucos de paixão" não tem medo dos clichês, conforme pode-se perceber. No entanto, o roteiro ritmado disfarça a escassez de surpresas, especialmente quando põe em cena seus dois protagonistas. Desde o primeiro diálogo no bar - quando Nora descaradamente flerta com o atônito Max - até o final modificado depois de exibições-teste que não o aprovaram, a forma como Sarandon e Spader dominam seus personagens encanta e seduz o público sem fazer muita força. Sarandon não se intimida com a sexualidade ululante de Nora, se entregando sem pudor a cenas bastante apimentadas e Spader, com seu rosto angelical - que já havia sido explorado a contento por Steven Soderbergh em seu "sexo, mentiras e videotape" (89) - transmite com segurança toda a vastidão emocional que Max precisa esconder por trás de uma vida de aparências e boa educação. O encontro dos dois mundos - regido ainda pela irmã mais velha de Nora, a vidente interpretada por Eileen Breenan - é o melhor do filme, uma história de amor adulta feita para adultos.

"Loucos de paixão" não foi um estouro de bilheteria, nem tampouco é muito lembrado dentro da vitoriosa carreira de Susan Sarandon. Mas é uma bela história, narrada com competência e elegância, dentro de um roteiro enxuto e realista. Em uma época em que muitos filmes preferiam o exagero à discrição, ousou ser minimalista e sutil em suas emoções. Por causa disso, é uma pequena pérola a ser redescoberta.

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