sábado, 31 de janeiro de 2015

ECLIPSE TOTAL

ECLIPSE TOTAL (Dolores Claiborne, 1995, Warner Bros, 132min ) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Stephen King. Fotografia: Gabriel Beristain. Montagem: Mark Warner. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Steve Shewchuck. Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill. Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Straithairn, John C. Reilly, Eric Bogosian, Ellen Muth, Bob Gunton. Estreia: 24/3/95

Em 1990, durante uma visita às filmagens de "Louca obsessão", adaptação de uma obra sua dirigida por Rob Reiner, o escritor Stephen King ficou impressionado com a atriz principal escolhida pelo cineasta, a até então desconhecida Kathy Bates - que em seguida impressionaria também o mundo inteiro e a Academia de Hollywood com seu desempenho irretocável. O tamanho da admiração de King pelo trabalho de Bates ficou claro quando o autor inspirou-se nela para escrever um novo romance, ao qual deu o nome de "Dolores Claiborne" - e cujos direitos foram imediatamente comprados pela Warner por 1,5 milhão de dólares. Com a escolha óbvia de Bates para o papel central, o filme chegou às telas no primeiro trimestre de 1995 sob a direção de Taylor Hackford e, apesar de não ter feito barulho nas bilheterias, é uma produção digna de figurar ao lado de outras grandes adaptações da obra de King que fogem de seu gênero habitual - um panteão rarefeito onde também estão "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94). Com um perfeito equilíbrio entre o suspense e o drama familiar, "Eclipse total" - um título nacional surpreendentemente adequado - é uma pequena pérola muitas vezes esquecida pelo público que consome avidamente qualquer produto que leve a assinatura do escritor.

Hackford - ainda pouco conhecido, apesar de "O sol da meia-noite" e "Paixões violentas", dois relativos sucessos de bilheteria e crítica - demonstra total segurança desde a instigante abertura, que mostra a protagonista sendo flagrada em vias de assassinar a idosa milionária de quem vem cuidando há vinte anos. A pequena cidade do Maine onde se passa essa impressionante cena inicial dá lugar, então, à barulhenta e cosmopolita Nova York, onde a jovem jornalista Selena St. George (Jennifer Jason Leigh) - que está tentando convencer seu editor e ex-amante a dar-lhe a chance de cobrir uma grande reportagem - recebe um fax avisando que sua mãe está presa, acusada de assassinato. Logicamente sua mãe é a Dolores Claiborne do título original (interpretada magistralmente por Kathy Bates), e Selena, que não a visita há mais de duas décadas, parte para o interior com o objetivo de ajudá-la. Neurótica e complicada, a jovem encontra em sua mãe uma mulher amargurada e seca que nega terminantemente a culpa pela morte de sua patroa, a irascível Vera Donovan (Judy Parfitt), mesmo depois de ter sido pega em uma situação absolutamente comprometedora.


A relação entre mãe e filha não é das melhores - e tal situação data da misteriosa morte de Joe St. George (David Straithairn), acontecida durante um eclipse do sol há muitos anos. Acusada na época - por Selena e pelo detetive de polícia local, John Mackey (Christopher Plummer) - de ter sido a responsável pela morte do marido (alcólatra, violento e abusivo), Dolores saiu incólume da investigação, mas vê-se novamente sob a lente de Mackey, que ainda não acredita na sua inocência. Enquanto esperam pela data do inquérito, Dolores e Selena são obrigadas, então, a uma convivência forçada que acaba trazendo à tona momentos dolorosos do passado, que acabam por explicar toda a névoa que cobre as duas mortes relacionadas à batalhadora empregada doméstica e os problemas psicológicos de sua jovem e perturbada filha.

Não há dúvidas de que a história de King é intrigante e prende a atenção do início ao fim - e contém personagens fascinantes e bem construídos, melhorados ainda pelo roteiro de Tony Gilroy, que depois se tornaria cineasta - é dele o premiado "Conduta de risco", de 2007. Mas é a direção certeira de Taylor Hackford que faz com que o filme atinja níveis expressivos de qualidade dramática. Elegante e sutil, ele consegue amenizar a violência da trama original sem trair suas origens literárias e, para isso, conta com uma equipe primorosa - que inclui Danny Elfman na trilha sonora - e atores espetaculares. Se Kathy Bates comanda o show com seu arsenal inesgotável de nuances (Dolores consegue ser subserviente, furiosa, triste, misteriosa e seca sempre que o roteiro precisa), seus colegas de cena não ficam a dever. Tudo bem que Jennifer Jason Leigh até escorrega no lugar-comum, com sua Selena está sempre de preto, fumando compulsivamente, mas uma história de Stephen King sem clichê ainda não existe e o restante do elenco compensa lindamente esse pecadilho: David Straithairn cria um Joe St. George asqueroso em suas falhas e crimes, Christopher Plummer explora com sabedoria o caráter obcecado de seu John Mackey e Judy Parfitt... Bem, na pele da patroa/amiga/vítima de Dolores, a atriz dá um banho de interpretação, duelando de igual para igual com Bates, em cenas inesquecíveis.

Menos conhecido do que merece, "Eclipse total" é um belíssimo filme, que comprova a sensibilidade de Stephen King em falar sobre pessoas mesmo quando elas não tem poderes paranormais ou estão acossadas por demônios e alienígenas. Merece ser descoberto por suas várias e fabulosas qualidades.

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