quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SOB O DOMÍNIO DO MAL

SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian candidate, 2004, Paramount Pictures, 129min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Daniel Pyne, Dean Georgaris, roteiro de George Axelrod, romance de Richard Condon. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carol Littleton, Laura Rosenthal. Música: Rachel Portman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Scott Aversano. Produção: Jonathan Demme, Ilona Herzberg, Scott Rudin, Tina Sinatra. Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schrieber, Jon Voight, Jeffrey Wright, Ted Levine, Miguel Ferrer, Vera Farmiga, Kimberly Elise, Zeljko Ivanek. Estreia: 22/7/04

A palavra "remake" tem o poder de causar arrepios nos cinéfilos, escaldados com aberrações como o desnecessário "Psicose" que Gus Van Sant cometeu em 1998 e outras atrocidades que volta e meia assombram clássicos absolutos da sétima arte. Nem mesmo nomes consagrados como Jonathan Demme - vencedor do Oscar pelo sublime "O silêncio dos inocentes" - conseguiram sair ilesos pela prova de tentar renovar histórias pré-aprovadas pela audiência, como demonstrou no terrível "O segredo de Charlie", estrelado por Mark Wahlberg e Charlize Theron em 2002, releitura de "Charada". Mas como em Hollywood nada é definitivo, Demme voltou a buscar inspiração no passado quando aceitou comandar a refilmagem de "Sob o domínio do mal", filmaço de 1962 dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Frank Sinatra e Angela Lansbury. Percebendo na trama criada pelo romancista Richard Condon um reflexo ainda bastante atual da paranoia política - em especial pós-11 de setembro - Demme atualizou a história de forma inteligente, escalou um elenco impecável e criou um filme que, se não marcou época como seu original, ao menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o final com um tom opressivo e de suspense que raros cineastas conseguem atingir.

Enquanto no filme original - que Frankenheimer dirigiu no mesmo ano em que também lançou "O anjo violento", com Warren Beatty e "O homem de Alcatraz", com Burt Lancaster - a trama se apoiava no período posterior à Guerra da Coreia, a releitura de Demme tem como ponto de partida a Guerra do Golfo, de onde emerge o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber, ótimo), que, assumindo o comando de seu pelotão depois de seu superior ter sido posto fora de combate, conseguiu salvar seus colegas soldados. Condecorado como herói de guerra, Shaw inicia uma promissora carreira política, seguindo os passos de seu falecido pai e de sua mãe, a ambiciosa senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep, estupenda como sempre). Adorado pelo público, ele é nomeado candidato à vice-presidente, substituindo o experiente Thomas Jordan (Jon Voight), pai de uma antiga namorada, com quem rompeu devido a maquinações de sua mãe. Porém, justamente quando começa sua escalada rumo à Casa Branca, Shaw passa a ser assediado por seu antigo superior, Tenente Ben Marco (Denzel Washington), que, torturado por pesadelos constantes, procura saber, através de Shaw ou qualquer outra pessoa ligada a seu período militar, o que realmente aconteceu durante os dias em que sua equipe esteve desaparecida.


Revelando aos poucos o horror da tramoia política que envolve Marco e Shaw - que tem ligações com empresas de tecnologia médica e a sede pelo poder no governo americano - Demme conta com uma edição que equilibra com inteligência momentos de pura claustrofobia e paranoia com cenas que demonstram de maneira quase cínica os meandros da política ianque (e por que não, mundial?). O público descobre junto com Marco - em atuação excepcional de Denzel Washington - toda a enorme teia de violência e interesses financeiros por trás de uma aparente trama de simples ambição. A partir do momento em que um colega de guerra (interpretado por um Jeffrey Wright assustador) chega até Marco e questiona suas lembranças, a audiência é mergulhada em um turbilhão de informações que podem ou não ser reais, em histórias que podem ou não ter acontecido, de pessoas que podem ou não ser dignas de confiança. É aí que o cineasta - que assombrou o mundo com seu Hannibal Lecter - mostra seu diferencial, contando sua história com sutileza visual, onde a iluminação e os enquadramentos dizem mais do que páginas de diálogo. Basta reparar na forma como Shaw e Marco, por exemplo, se comportam diante de forças que não podem controlar: uma pequena mudança de semblante, uma luz diferente e pronto... o suspense está instaurado!

Co-produzido por Tina Sinatra - que detinha os direitos do filme, herdados de Frank - "Sob o domínio do mal" tem também como destaque mais uma atuação irrepreensível de Meryl Streep, nitidamente se divertindo na pele da velha raposa política Eleanor Shaw, que deu a Angela Lansbury uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1962. Elegante e fria, Streep cria uma dupla afinadíssima com Liev Schrieber, um ator subestimado que mostrou-se à altura de substituir Laurence Harvey e entrar em embates com a própria Streep e Denzel Washington, dois monstros sagrados do cinema americano. São os atores excelentes, somados à direção segura de Demme e à história perigosamente realista de Condon que fazem com que a nova versão de "Sob o domínio do mal" seja, mais do que uma refilmagem, um produto que resiste bravamente às comparações.

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