quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

PÂNICO

PÂNICO (Scream, 1996, New Dimension Films, 111min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Kevin Williamson. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Patrick Lussier. Música: Marco Beltrami. Figurino: Cynthia Bergstrom. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/Michele Poulik. Produção executiva: Marianne Maddalena, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Cary Woods. Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich, Jamie Kennedy, Drew Barrymore, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber. Estreia: 18/12/96

O pai de uma das mais cultuadas espécies do cinema de terror estava em baixa na década de 90. Depois de ver sua mais famosa criatura - Freddy Krueger - exposto ao ridículo nas inúmeras continuações de seu "A hora do pesadelo" - incluindo até uma comandada por ele mesmo dez anos mais tarde - Wes Craven estava disposto a dar um novo rumo à carreira e abandonar o gênero que havia lhe dado fama e dinheiro. Foi então que caiu em suas mãos o roteiro de um novato chamado Kevin Williamson que dava sangue novo (literalmente) aos slasher movies - filmes ao estilo "Halloween" e "Sexta-feira 13" - acrescentando à receita doses cavalares de humor e autocrítica. Craven topou dirigir o roteiro como homenagem aos fãs que o cobravam constantemente e a Miramax resolveu lançar seu novo produto dias antes do Natal de 1996, acreditando que a plateia precisava de uma opção  aos dramas lacrimosos que ambicionavam o Oscar e os filmes familiares que dominavam as salas de cinema no mesmo período. A estreia foi pouco alvissareira, mas não demorou muito para que a propaganda boca-a-boca mostrasse seu poder: ao final de sua estadia nas telas, "Pânico" não só estava com uma renda superior a 100 milhões de dólares, como havia se transformado em uma inesperada e bem-vinda franquia de terror adolescente - e adiado mais um pouco os planos de Craven em ser um cineasta sério.

O roteiro de Williamson - que se tornaria o escritor-selo da série e de outros filmes do gênero pelos anos seguintes, além de criar a série adolescente televisiva "Dawson's Creek" - não demora a apresentar seu vilão, um cruel assassino mascarado chamado Ghostface que, em uma sequência de 12 longos minutos, tortura psicologicamente e por fim mata a facadas a jovem Casey (Drew Barrymore) em uma noite na qual a garota está sozinha em casa. O crime assusta os moradores da pequena cidade de Woodsboro, que um ano antes havia tido repercussão nos noticiários nacionais graças ao estupro e à morte de uma moradora, Maureen Prescott. Não demora para que a filha única de Maureen - que testemunhou no julgamento do homem condenado por seu assassinato - perceba que ela é o alvo principal do assassino misterioso, que passa a matar pessoas próximas a ela. Tímida e reservada, Sidney (Neve Campbell) conta com a ajuda da polícia local para fugir e desmascarar o criminoso, especialmente do atrapalhado Dewey (David Arquette) - irmão de sua melhor amiga, Tatum (Rose MacGowan) - e de seu ambíguo namorado, Billy Loomis (Skeet Ulrich), de quem começa a desconfiar quando a paranoia se transforma em companheira constante. Além de tudo, Sidney ainda precisa lidar com a empáfia de Gale Weathers (Courteney Cox), repórter de TV que está em vias de publicar um livro narrando o homicídio de Maureen.


Visto como um simples filme de terror adolescente, "Pânico" talvez não ofereça mais do que seus similares, uma vez que segue à risca todos os mandamentos do gênero - e brinca com todos eles através de diálogos inteligentes e sarcásticos. O que fez dele um exemplar refrescante - e que o fez virar febre e gerar duas continuações imediatas e uma temporã, mais de uma década depois de sua estreia - é justamente a combinação na medida certa entre o clássico e o novo, oferecendo a seu público-alvo um cinema fast-food divertido, rápido e que foi ao encontro de suas necessidades. Violento sem exageros - pelo menos dentro da concepção de violência de um filme do gênero as mortes são ao mesmo tempo tensas e dotadas de um macabro senso de humor que deu margem inclusive às sátiras de "Todo mundo em pânico" - e recheado de citações visuais e verbais ao cinema de horror moderno (com direito a uma "participação especial" do próprio Freddy Krueger e inúmeras referências a clássicos do suspense), "`Pânico" conquistou também por não levar-se demasiadamente a sério, acrescentando um tom de deboche a uma receita já devidamente testada e aprovada: esse molho especial consegue inclusive disfarçar a apatia de sua mocinha, a insípida Neve Campbell, que tornou-se um ícone da nova geração dos filmes de terror - que ganhou uma sobrevida interessante graças ao sucesso do filme.

E, além de suas qualidades como entretenimento, "Pânico" também tem histórias saborosas em seus bastidores. Drew Barrymore, por exemplo, foi escalada para viver Sidney, mas conversando com Wes Craven, ambos chegaram à conclusão de que matar uma atriz conhecida do público logo na primeira cena seria um golpe de mestre, preparando a audiência para um vale-tudo, onde tudo poderia acontecer. Molly Ringwald, ídolo da adolescência dos anos 80, também chegou a ser convidada para o papel, mas recusou por achar-se velha demais (27 anos à época) para convencer como estudante secundarista - e entre outras possibilidades levantadas por Craven estavam Reese Witherspoon e Brittany Murphy. Brooke Shields quase ficou com o papel da repórter Gale Weathers quando Janeane Garofalo pulou fora, mas na última hora o diretor optou por Courteney Cox - famosa pela série "Friends" - que, durante as filmagens, conheceu e se apaixonou por seu futuro marido David Arquette (o casamento durou até 2013). E o próprio Arquette viu seu personagem ganhar importância devido à reação positiva do público nas sessões-teste, a ponto de garantir uma sobrevida para as continuações. Linda Blair, a Reagan McNeil de "O exorcista", faz uma ponta como repórter. E até Joaquin Phoenix, hoje respeitado como um dos melhores atores de sua geração, fez um teste para viver Billy Loomis.

Item essencial da filmografia juvenil dos anos 90 e divertido ao extremo - dentro da concepção de diversão que um filme que mostra adolescentes sendo assassinados a facadas - "Pânico" é também o pai de filmes menores, como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" e "Prova final", que beberam na sua fonte até o esgotamento do filão. Imperdível.

Um comentário:

Kahlil Appel disse...

Um dos meus filmes favoritos. O contexto da época e como esse filme afetou a indústria, principalmente no gênero terror, fazem dele uma peça impórtante na história do cinema.

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/