sábado, 9 de janeiro de 2016

O LOBO DE WALL STREET

O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013, Paramount Pictures, 180min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Terence Winter, livro de Jordan Belfort. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Danny Dimbort, Joel Gotler, Georgia Kacandes, Alexandra Milchan, Irwin Winkler, Rick Yorn. Produção: Riza Aziz, Leonardo DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Margot Robbie, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Shea Whigham, Ethan Suplee. Estreia: 17/12/13

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Leonardo DiCaprio)


Quando “O lobo de Wall Street”, 30º longa-metragem de Martin Scorsese – contando-se os documentários e sua participação no episódico “Contos de Nova York”, ao lado de Francis Ford Coppola e Woody Allen – foi classificado como comédia pelos jornalistas estrangeiros que elegem os vencedores dos cobiçados Golden Globes (que só perdem para o Oscar em termos de importância no mercado norte-americano), muita gente estranhou – até mesmo seu ator principal, Leonardo DiCaprio, que ganhou a disputa da estatueta em sua categoria. Porém, o que talvez poucos tenham notado é que, da maneira como foi filmada por Scorsese – no auge de uma energia aparentemente inesgotável – a trajetória de altos e baixos (mais altos do que baixos) do protagonista Jordan Belfort é, definitivamente, uma comédia. Histérica, cruel, de humor nigérrimo e pouco dada a concessões ao riso fácil, mas uma comédia. Das boas. E das mais inteligentes que se pode conceber em uma indústria tão dada a suscetibilidades pudicas quanto a de Hollywood.
A história de Belfort – contada em sua autobiografia, aqui adaptada com verve e extrema ironia por Terence Winter, merecidamente indicado ao Oscar – não é engraçada, pelo menos pelos parâmetros oficiais do termo: sua ascensão no mercado de ações, regada a muita droga, corrupção e orgias das mais variadas e sua queda vertiginosa rumo às malhas da lei, recheada de associações escusas e a perda da própria família, são contundentes e tão violentas quanto aquelas mostradas pelo mesmo Scorsese em “Os bons companheiros” (90), mas o cineasta nova-iorquino dessa vez resolveu optar por um caminho menos óbvio e linear de retratá-las. Sai de cena a crueldade sanguinolenta dos becos sórdidos do Bronx e entram em cena o luxo e o glamour de mansões paquidérmicas. A ameaça não é mais representada por rivais na disputa pela primazia no tráfico de drogas e sim por agentes da Receita Federal pouco afeitos a negociatas. A paranoia, consequência do abuso de tóxicos não mais assusta ou mata, e sim dá lugar a absurdas sequências de um humor tão negro que até mesmo os mais atentos espectadores demoraram a percebê-lo em sua totalidade. “O lobo de Wall Street” não faz rir através de piadas fáceis. É preciso embarcar em sua visão particular de comédia para chegar ao âmago de sua ironia iconoclasta e devastadora. Scorsese não quer arrancar gargalhadas apelando para a vulgaridade – e quando joga diante do espectador cenas explodindo de sexo e excessos de toda a espécie, é uma forma de, através de uma lente de aumento, sublinhar o quão patética a ambição e a decadência podem soar. Se no cinema do diretor nunca faltou descomedimento, em “O lobo de Wall Street” ele é ainda mais explícito e crucial. É um meio magistralmente manipulado para se chegar a um fim de inegável impacto e genialidade.
Deixando de lado a inocência de seu filme anterior, o poético e deslumbrante “A invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz, em “O lobo de Wall Street” um inventário impiedoso e barulhento de toda a parafernália amoral e inescrupulosa da mais individualista do século XX, os insensíveis anos 80 que tão bem foram definidos por Gordon Geko, o personagem do oscarizado Michael Douglas em “Wall Street: poder e cobiça” (87): do alto de sua arrogância yuppie, ele declarava, com um sorriso cínico estampado, que “ganância é bom!”. E ganância é a palavra-chave na história de Jordan Belfort, interpretado na linha exata entre o deboche escrachado a fina ironia por um Leonardo DiCaprio no auge de sua colaboração com o diretor. Recebido em Wall Street como um rapaz ambicioso mas ainda ingênuo que escapa de ser devorado por homens como seu mentor Mark Hannah (Matthew McConaughey) graças a um apurado instinto de sobrevivência, Belfort se vê repentinamente no meio de uma crise financeira que o faz perder o emprego e quase aniquila com suas esperanças. Porém, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em sua rápida passagem pelo alto mercado financeiro, ele logo encontra um jeito de arrumar uma recolocação ainda mais promissora: em pouco tempo, ele passa de empregado de uma corretora de fundo-de-quintal (dirigida pelo também cineasta Spike Jonze em ponta não-creditada) a dono de uma empresa de ações. Desprovidos de qualquer tipo de ética, Belfort e seu sócio, Donnie (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), junto com um grupo de amigos, tornam-se milionários da noite para o dia – e com os dólares em profusão vem também a possibilidade de queda.



Entregando-se sem medo a exorbitâncias materiais, sexuais e alucinógenas, Jordan abandona a esposa, casa-se com a bela Naomi LaPaglia (Margot Robbie) e, cada vez mais rico, chama a atenção da Receita Federal e do FBI, na figura do honesto e implacável Patrick Denham (Kyle Chandler). Começa, então, uma corrida para manter a salvo sua liberdade, sua reputação e principalmente sua fortuna. Em uma edição progressivamente mais ágil e febril – a cargo da habitual parceira de Scorsese, a veterana Thelma Schoonmaker, vencedora do Oscar por “Touro indomável” (80) e “Os infiltrados” (06) – o filme vai se tornando a cada cena mais histérico (no bom sentido) e alucinado. Brincando com o tempo de forma genial, Scorsese e Schoonmaker comprimem meses em rápidos segundos e se dão ao luxo de gastar vários minutos em uma única cena aparentemente simples – e ainda oferecem à plateia uma longa sequência e divertidíssima sequência em que Belfort, sentindo o resultado de uma vasta quantidade de anfetaminas ingeridas como balas, se vê repentinamente vítima de uma temporária paralisia cerebral: o resultado da cena e suas consequências mostram o total domínio técnico do cineasta e sua inteligência em modelar o roteiro a seu estilo inconfundível (mas sempre imprevisível) de filmar. Não à toa, mesmo com a profusão de cenas de sexo e consumo de drogas de seu filme – uma afronta à moral e aos bons costumes pregados pela Academia – Scorsese acabou concorrendo ao Oscar por seu trabalho (junto com as indicações a melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante).
 Implacável no retrato debochado de um estilo de vida em que o glamour convive lado a lado com uma inconfundível cafonice, Scorsese fez de “O lobo de Wall Street” uma obra-prima do sarcasmo. Contando com um elenco coadjuvante que se dá ao luxo de ter os também cineastas Jon Favreau e Rob Reiner (na pele do irascível pai do protagonista) e o oscarizado Jean Dujardin (de “O artista” (11)) em pequenos papéis, ele brinca com a falta de moralidade ianque e tira sarro da suposta sobriedade do mercado financeiro mais importante do mundo. Não é à toa que poucos acharam graça na brincadeira.

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