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SUÍTE FRANCESA

SUÍTE FRANCESA (Suite Française, 2014, Alliance/Scope Pictures, 107min) Direção: Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb, Matt Charman, romance de Irène Némirovsky. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Chris Dickens. Música: Rael Jones. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Véronique Melery. Produção executiva: Len Blavatnik, Christine Langan, Charles Layton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Romain Bremond, Andrea Cornwell, Michael Kuhn, Xavier Marchand. Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott-Thomas, Matthias Schonaerts, Margot Robbie, Sam Riley, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara, Harriet Walter, Ruth Wilson, Eric Godon, Deborah Findlay. Estreia: 05/11/14

Final dos anos 1990: filha de uma vítima fatal dos campos de concentração de Auschwitz, Denise Epstein aceita a proposta de doar as anotações de sua mãe, a escritora Irène Nemirovsky, morta em 1942, para os arquivos franceses sobre a II Guerra Mundial. Antes de entregar todas os seus escritos, porém, ela resolve finalmente ler o que acreditava ser um doloroso diário sobre a rotina da prisão e descobre, surpresa, que tem em mãos um livro inacabado, um romance ambicioso que tencionava retratar o período da guerra sob um olhar mais mundano e menos político, concentrando sua ação em personagens comuns vivendo situações extremas. Publicado em 2004, "Suíte francesa" torna-se um bestseller e, como era previsível, chama a atenção de Hollywood - mais especificamente dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall (colaboradores habituais de Steven Spielberg nos anos 80 e 90), que, com o apoio da Universal Pictures, chegam a contratar o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por "O pianista"). Foi uma produtora francesa, porém, a TF1 Droits Audiovisuels, quem levou o projeto adiante, sob a direção de Saul Dibb e a produção executiva dos irmãos Weinstein (ex-Miramax e donos da Weinstein Company). A mudança de planos pode ter sido benéfica em termos artísticos (sabe-se lá quem seriam as escolhas da Universal para o elenco), mas foi um desastre em termos de marketing: pronto desde o final de 2014, o filme só estreou nos EUA na televisão a cabo, em maio de 2017 - acabando com suas chances de prêmios e bilheterias de destaque.

O lançamento equivocado de "Suíte francesa" nos cinemas - apesar de seu lançamento em mais de 30 países, ele nunca chegou a ter o merecido destaque dos produtores - apenas privou o público de uma pequena obra de arte, delicada, sensível e emocionante. Experiente em produções de época (seu "A duquesa" levou o Oscar de figurino em 2009), o cineasta Saul Dibb explora com segurança e bom gosto todas as nuances da trama de Nemirovsky - em um roteiro coescrito por ele e Matt Charman que se concentra basicamente na novela "Dulce". Mais do que apenas contar uma devastadora história de amor proibido, Dibb também apresenta ao espectador uma visão diferente do conflito, centrada em famílias atingidas indiretamente pelas bombas e pela violência. Não há, no filme, cenas sanguinolentas ao estilo "O resgate do soldado Ryan", ou contemplativas como em "Além da linha vermelha", ambos de 1998: o que interessa ao cineasta são as consequências de tudo isso no dia-a-dia principalmente das mulheres que, deixadas de lado no front, eram obrigadas a esperar notícias de seus maridos/filhos/irmãos enquanto sofriam na pele o outro lado da moeda, se vendo diante de dilemas morais dilacerantes, que transformavam seu silêncio em impensáveis concessões ao inimigo.


O inimigo, em "Suíte francesa", surge na forma pouco convencional de um homem culto, inteligente, sensível e romântico, que abala as estruturas de uma jovem até então dedicada ao marido e ao lar. Esse inimigo, vestido com o uniforme da Alemanha nazista, é Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), que se hospeda compulsoriamente na propriedade de Madame Angellier (Kristin Scott-Thomas) durante a ocupação germânica na França. Apesar de ser tido (justificadamente) como alguém em quem não se deve confiar, os modos elegantes de Bruno acabam chamando a atenção de Lucille (Michelle Williams), que espera notícias de seu marido - filho de Angellier e prisioneiro de guerra. Atraída pelos bons modos de Bruno e sua paixão por música, a recatada Lucille acaba se envolvendo muito mais do que deveria - especialmente quando moradores da região passam a tornar-se alvo preferencial dos soldados invasores, devido à sua insurreição. Ao tentar fazer o que suas consciências obrigam, tanto Lucille quanto Bruno se veem diante de decisões que significam a vida ou a morte - e percebem que a força da guerra pode ser tão grande ou maior do que a do amor que sentem um pelo outro.

Dentre suas inúmeras qualidades, "Suíte francesa" consegue a façanha de contar sua trama principal de forma satisfatória sem deixar de lado os personagens paralelos, cujas histórias aparentemente marginais acabam por afetar profundamente seu desenrolar. A mais importante delas diz respeito ao jovem Benoit Labarie (Sam Riley), cuja tragédia conjugal atravessa radicalmente o romance dos protagonistas e os joga em um labirinto de situações imprevistas que servem para testar seu amor. Saul Dibb conta todas as histórias de seu roteiro com delicadeza e cuidado, se preocupando em proporcionar ao espectador uma experiência vasta em emoções. Consegue atingir seu objetivo na maior parte do tempo, graças principalmente à excelência de seu elenco, que se dá ao luxo de ter a sempre fascinante Kirstin Scott-Thomas em um papel coadjuvante mas crucial - e que pega o público de surpresa com algumas atitudes que apenas reiteram a ideia central do filme: a guerra pode despertar o melhor ou o pior nas pessoas, basta que elas se deixem levar por sua verdadeira personalidade. Uma história de amor lindamente musicada (o tema principal é de Alexandre Desplat) e com um histórico pessoal poderoso, "Suíte francesa" merece ser descoberto e admirado - ao menos para que se confira a excelente química entre Michelle Williams e Matthias Schoenaerts.

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