quarta-feira

EU, TONYA

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney) 

O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.

Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.





Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.


Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!

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