terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

OLHO POR OLHO

OLHO POR OLHO (Eye for an eye, 1996, Paramount Pictures, 104min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa, romance de Erika Holzer. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Peter Honess. Música: James Newton Howard. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Jan K. Bergstrom. Produção: Michael I. Levi. Elenco: Sally Field, Ed Harris, Kiefer Sutherland, Joe Mantegna, Philip Baker Hall, Keith David, Beverly D'Angelo, Charlayne Woodard. Estreia: 12/01/96

Desde que Charles Bronson vingou a morte da família no cultuado "Desejo de matar", de 1972, a justiça pelas próprias mãos tornou-se um assunto recorrente no cinema americano, mas normalmente como tema de filmes de orçamento limitado, com atores do segundo time e diretores pouco afeitos a objetivos outros que não lucrar com o desejo ilimitado da plateia em saborear o sangue marginal de vilões cruéis e dotados de todo o maniqueísmo de que um roteirista é capaz. Por isso não deixa de ser surpreendente ver uma atriz do nível de Sally Field e um diretor como John Schlesinger - ambos respeitados e vencedores do Oscar - envolvidos em "Olho por olho", um drama de suspense que, no fundo e apesar de contar com nomes de prestígio nos créditos, não passa de uma versão menos trash das dezenas de filmes do estilo. O fato de ser baseado em um livro não impede o roteiro de tropeçar em todos os clichês possíveis e só mesmo a presença da sempre carismática Sally Field impede a produção de soar como mais um telefilme barato.

Dirigido no piloto automático por John Schlesinger - que no passado comandou o clássico moderno "Perdidos na noite" (69) - "Olho por olho" peca principalmente por não acrescentar nada ao que já é quase um subgênero do cinema norte-americano. Seu filme não é um drama marcante, nem tampouco um suspense aterrorizante. Não desperta discussões a respeito de seu tema ou permanece na mente do espectador após o final da sessão. E é justamente essa falta de ousadia ou personalidade que joga no lixo todas as possibilidades da história, já não tão original. Karen McCann (Sally Field, boa atriz mas desperdiçada em um papel sem grandes nuances) leva uma vida pacata e feliz ao lado do marido, Mack (Ed Harris) e das duas filhas, Julie (Olivia Burnette) - do seu primeiro casamento - e Megan (Alexandra Kyle). Essa vida normal sofre um violento baque quanto Julie é estuprada e morta em casa, praticamente diante dos olhos de sua mãe, que ouve tudo pelo celular. A dor da perda logo é amenizada quando a polícia prende o criminoso, Robert Doob (Kiefer Sutherland, exercitando mais uma vez seu lado maligno), mas tudo vai por terra quando ele é absolvido por questões técnicas. Revoltada, Karen entra em um grupo de ajuda a pais na mesma situação e, escondida do marido, resolve vingar-se por conta própria do assassino.


Contando com a ajuda de dois colegas do grupo, Karen arruma uma arma, entra em aulas de defesa pessoal e tiro, enquanto inicia uma relação de confiança e amizade com outra integrante, Angel (Charlayne Woodard), que perdeu um filho pequeno em um assalto. Quando Doob passa a desconfiar das ideias de Karen - que ronda sua vizinhança como forma de planejar sua morte - as coisas ficam ainda piores: sentindo que o marginal também não hesitará em atacar a pequena Megan como represália, ela abre mão dos conselhos do marido e do bom-senso para vingar-se em grande estilo. Nem mesmo uma surpresa na sua relação com Angel a demove da ideia, que toma forma definitiva quando ela manda a família passar uma noite fora da casa onde vivem.

Sem grandes surpresas que justifiquem sua realização - o desfecho é anti-climático e a forma encontrada por Karen de sair da história de mãos limpas não chega a ser exatamente original - "Olho por olho" é o tipico filme que vale exclusivamente por seu elenco, repleto de talentos isolados que valorizam o produto final. Sally Field substituiu Jamie Lee Curtis e não precisa provar seu talento dramático no mínimo desde seu primeiro Oscar, por "Norma Rae" (79) e, apesar de ser subaproveitado como o marido da protagonista - que faz pouco mais do que ficar a seu lado durante seus momentos de crise emocional - Ed Harris segura com competência o nível de interpretação de Field, e Kiefer Sutherland mostra mais uma vez porque era um dos vilões preferidos de Hollywood antes de virar o herói Jack Bauer na série televisiva "24 horas". É o trabalho dos três que faz de um filme apenas médio uma sessão razoavelmente interessante.

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