quinta-feira, 23 de outubro de 2014

NORMA RAE

NORMA RAE (Norma Rae, 1979, 20th Century Fox, 110min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Irving Ravetch, Harriet Frank Jr.. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sidney Levin. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: Walter Scott Herndon/Tracy Bousman. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Sally Field, Beau Bridges, Ron Leibman, Pat Hingle, Grace Zabriskie. Estreia: 02/3/79

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sally Field), Roteiro Adaptado, Canção ("It goes like it goes")
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Canção ("It goes like it goes")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field) 
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz (Sally Field) - Festival de Cannes

Vinte anos antes de Erin Brockovich, outra mulher valente do interior dos EUA mostrou seu valor nas telas de cinema. Assim como a personagem que deu o Oscar de melhor atriz à Julia Roberts em 2001, Norma Rae, uma trabalhadora da indústria têxtil do Alabama que tornou-se peça fundamental na consolidação do sindicato profissional de sua área no início dos anos 70, é uma personagem real. Melhor dizendo, quase real. Inspirado na vida de Crystal Lee Sutton, que morava na Carolina do Norte, o filme de Martin Ritt sobre a descoberta de uma mulher de sua força interior e de sua coragem contra a opressão no mercado de trabalho rendeu à Sally Field - até então uma atriz de televisão sem maiores créditos no cinema - a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes e posteriormente, tornou-a a atriz mais premiada do ano, com reconhecimento de todas as associações críticas dos EUA, o Golden Globe e finalmente o Oscar. Seu desempenho, que equilibrava com inteligência força e fragilidade, provou que ali estava bem mais que a antiga Noviça Voadora - e que herdar um papel recusado por Jane Fonda e Jill Clayburgh não poderia ter sido sorte maior.

Até mesmo Shirley MacLaine estava de olho no papel de Norma Rae, uma mulher comum que vive no sul dos EUA com os pais e os dois filhos - um de cada pai. Amante de um homem casado e eternamente infeliz em suas escolhas amorosas, ela leva uma vida banal, sem maiores acontecimentos, trabalhando na fábrica têxtil de sua cidadezinha do Alabama - a mesma fábrica que também emprega seus pais e grande parte dos habitantes. Tudo começa a mudar quando ela conhece Reuben Warshowsky (Ron Leibman), nova-iorquino que chega ao interior com a intenção de organizar um sindicato para os trabalhadores da fábrica. Logo Reuben percebe que a coisa não será fácil, uma vez que, mesmo sendo constantemente explorados por seus patrões, os funcionários tem medo de confrontá-los. Somado ao racismo inerente à região, o medo de todos faz com que Norma - que sente algo mais do que simples simpatia pelo forasteiro - resolva assumir a liderança de seus colegas. Em pouco tempo, a união começa a crescer e ela vê que sua dedicação pode lhe arrumar problemas. Tanto em casa com o novo marido, Sonny (Beau Bridges), quanto com todos aqueles que ela desafia com suas ideias revolucionárias.


Sally Field foi a escolha perfeita para viver a destemida Norma Rae. Carismática e dona de um sorriso contagiante, com o filme de Martin Ritt ela deu os primeiros passos de uma vitoriosa carreira no cinema - que lhe rendeu inclusive uma segunda estatueta da Academia, por "Um lugar no coração", em 1984. Seu trabalho foge do exagero, preferindo um viés mais intimista às reações de sua personagem, mesmo quando tragédias pessoais interferem em sua trajetória rumo à conscientização social. Também é preciso dar valor ao roteiro de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., também indicado ao Oscar: sem assumir um tom panfletário, ele oferece a Field a chance de brilhar tanto em cenas domésticas (quando ela conversa francamente com os filhos depois de sua prisão) quanto em momentos de maior emoção (a clássica sequência em que ela conclama seus colegas a interromper as máquinas em pleno horário de expediente). Sintomaticamente, essas duas cenas realmente aconteceram na vida de Crystal Lee Sutton, não foram invenção dos roteiristas.

Aliás, Lee Sutton não ficou exatamente satisfeita com o resultado final do filme de Martin Ritt, uma vez que preferia que sua história fosse contada em um documentário. É inegável, no entanto, que, sob os auspícios de Hollywood, com uma atriz conhecida do grande público e com os inúmeros prêmios arrecadados em seu caminho, sua trajetória atingiu e inspirou muito mais gente. Ela pode ter não gostado, mas muita gente gostou e ainda gosta da história da corajosa Norma Rae Webster.

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