domingo, 10 de março de 2013

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD


O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007, Warner Bros, 160min) Direção: Andrew Dominik. Roteiro: Andrew Dominik, romance de Ron Hansen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Hoover, Patricia Norris/Janice Blackie-Goodine. Produção executiva: Liza Ellzey, Brad Grey, Tony Scott, Benjamin Waisbren. Produção: Jules Daly, Dede Gardner, Brad Pitt, Ridley Scott, David Valdes. Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Sam Shepard, Garrett Dillahunt, Ted Levine, Zooey Deschannel. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Casey Affleck), Fotografia

Em algumas ocasiões o sucesso faz bem em Hollywood. É o caso de gente como George Clooney, que, enquanto ainda é um astro carismático e capaz de levar multidões às salas de exibição, pode ousar em algumas obras de interesse mais restrito e menos comercial sem prejuízo de seu nome. O mesmo acontece com Brad Pitt. Um dos nomes mais conhecidos e respeitados na terra do cinema - principalmente graças a boas escolhas na carreira - Pitt deixou de lado a figura de galã sexy para revelar-se um ator competente - e de quebra ainda render gordas bilheterias. Foi esse seu poder, por exemplo, que permitiu a ele que assumisse a produção de - e consequente controle sobre - um filme difícil, denso, lento e complexo quanto "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford". A partir do título longo que ele mesmo proibiu que fosse diminuído para efeito de marketing, tudo no filme de Andrew Dominik (talvez com exceção do próprio astro) apontava para seu fracasso financeiro - que de fato aconteceu.

Contrariando os desejos da Warner - que via no filme um belo potencial como produto de ação - Pitt e seu diretor fizeram de "Jesse James" um faroeste contemplativo e poético, uma visão bastante diferente daquilo que a massa espera assistir quando vê o nome do ator no cartaz. A transformação da montagem de quatro horas apresentada no Festival de Veneza (de onde Pitt saiu eleito melhor ator) em uma duração mais palatável de duas horas e quarenta minutos em sua estreia oficial, porém, pouco ajudou: com um custo estimado em trinta milhões de dólares, a produção não arrecadou nem 10% disso no mercado americano. Azar de quem perdeu um dos mais fascinantes faroestes modernos realizados em Hollywood.


Quem espera ver em "Jesse James" tiroteios, sangue, cenas espetaculares de ação e todos os clichês que envolvem o faroeste certamente vai sentir-se ludibriado - eles até são apresentados por Dominik, mas envoltos em um verniz de poesia raramente visto no gênero. Porém, quem estiver disposto a deixar-se levar por uma nova experiência tem tudo para acabar a sessão deslumbrado e emocionado. Emulando o estilo Terence Malik de criação, o jovem cineasta fez de seu segundo longa uma obra para poucos: é sem pressa que o roteiro vai delineando a personalidade doentia de Robert Ford (interpretado pelo sempre chato Casey Affleck, indicado a um Oscar de coadjuvante) em sua obsessão/atração/inveja pelo famigerado fora-da-lei que, ao contrário do que se poderia esperar em uma grande produção americana, tem seus defeitos, é melancólico e nada heroico. Aliás, é bastante interessante a forma como o filme trata Ford, nunca deixando exatamente claras as suas razões para cometer a traição e o assassinato do título (além da recompensa, é claro). A dubiedade que circunda todas as personagens permite inúmeras leituras do filme, sempre acrescentando mais camadas a cada revisão.

Fotografado avassaladoramente por Roger Deakins - que também concorreu a uma estatueta e injustamente perdeu para "Sangue negro" - e musicado com uma pungência tocante por Nick Cave, "O assassinato de Jesse James" é o perfeito filme "ame ou odeie". Mas é, antes de mais nada, uma prova da coragem de Brad Pitt em constantemente sair de sua zona de conforto. Bravíssimo!

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