sexta-feira, 7 de março de 2014

(500) DIAS COM ELA

(500) DIAS COM ELA ((500) days of Summer, 2009, Fox Searchlight Pictures, 95min) Direção: Marc Webb. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Alan Edward Bell. Música: Mychael Danna, Rob Simonsen. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Laura Fox/Jennifer Lukehart. Produção: Mason Novick, Jessica Tuchinsky, Mark Waters, Steven J. Wolfe. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Grace-Moretz, Matthew Gray Gubler. Estreia: 17/01/09 (Festival de Sundance)

Normalmente o público sabe o que esperar de uma comédia romântica: um casal se conhece, se apaixona e depois de inúmeros obstáculos que encontram no caminho, ou vivem felizes para sempre ou são separados definitivamente, para alegria ou lágrimas dos fãs do gênero. Quando um filme tem a ideia de desconstruir esse paradigma tão bem-sucedido (ao menos em termos de longevidade) tudo pode acontecer, desde um silêncio avassalador quanto um louvor unânime por parte da crítica e do público. "(500) dias com ela", a divertida história de amor e separação entre Tom e Summer encaixa-se na segunda opção. Estreando no Festival de Sundance de 2009, o filme de Marc Webb imediatamente conquistou a plateia e encantou a imprensa com seu equilíbrio perfeito entre romance e comédia, com seu realismo enfeitado com um visual moderno e com sua dupla de atores centrais - que saíram imediatamente do circuito independente para se tornarem respeitados e conhecidos além dos festivais de cinema.

Conhecido principalmente por ter feito parte do elenco de "10 coisas que eu odeio em você" - ao lado do amigo Heath Ledger - Joseph Gordon-Levitt pavimentou seu caminho rumo às superproduções hollywoodianas na pele do romântico, sensível e idealista Tom, um escritor de cartões comemorativos que cai de amores pela nova colega de trabalho, a realista, independente e decidida Summer (Zooey Deschanel). Com ideias bastante diferentes a respeito de uma relação amorosa, eles acabam se envolvendo, mas logicamente as coisas começam a complicar conforme o tempo passa e eles percebem que tem intenções distintas em relação ao futuro. Contando a turbulenta relação fora de ordem cronológica - o que permite ao espectador substituir o "o que irá acontecer?" pelo "como aconteceu?" - o roteiro de Michael H. Weber e Scott Neustadter oferece mais do que simplesmente uma história com começo, meio e fim bem definidos, preferindo, ao contrário, embaralhar suas cartas para analisar (não sem um senso de humor discreto e altas doses de melancolia) os altos e baixos de um relacionamento, por mais unilateral que ele seja.


Filha do diretor de fotografia Caleb Deschanel e parte do duo musical She & Him, Zooey Deschanel encarna de forma perfeita todas as nuances de Summer, com seu visual etéreo, seu gosto musical fora do comum e suas ideias particulares a respeito das relações amorosas. Mesmo tendo em mãos um papel que pode facilmente ser alvo de críticas pesadas - afinal de contas, é difícil não ver Tom como uma vítima de sua insensibilidade, ainda que isso só possa ser depreendido por espectadores propensos ao maniqueísmo - a bela atriz construiu uma personagem que tanto encanta quanto repele, de acordo com as atitudes mostradas no desenrolar do filme e pela forma como elas são interpretadas pelo apaixonado Tom. Salpicando sua obra com uma vastidão de detalhes que formam um doloroso quebra-cabeças em seu final, Marc Webb - que viu seu talento reconhecido com o convite de dirigir "O espetacular Homem-aranha" - faz rir e emociona ao imprimir um visual que flerta com o moderno e acena para o clássico: é especialmente fascinante a sequência onde Tom, deprimido pelo fim da relação, assiste a si mesmo em filmes ao estilo do sueco Ingmar Bergman e as demais referências culturais (Smiths, Sid Vicious) nunca soam deslocadas, graças ao roteiro esperto e à edição ágil.

Pontuado por uma trilha sonora das mais agradáveis, "(500) dias com ela" é um filme capaz de dividir opiniões. Os fãs das tradicionais comédias românticas podem sentir-se desconfortáveis pelo tom de realismo da história e aqueles que esperam mais do mesmo provavelmente não irão aprovar as inovações narrativas. Mas aqueles que se despirem de expectativas outras que não assistir a um filme criativo e inteligente provavelmente acabarão a sessão encantados e apaixonados. Se não por Summer, ao menos pelo filme.

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