segunda-feira, 11 de maio de 2015

POR UM SENTIDO NA VIDA

POR UM SENTIDO NA VIDA (The good girl, 2002, Fox Searchlight Pictures, 93min) Direção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Tony Maxwell, James O'Brien, Mark Orton, Joey Waronker. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Daniel Bradford/Susan Emshwiller. Produção executiva: Carol Baum, Kirk D'Amico, Philip Von Alvensleben. Produção: Matthew Greenfield. Elenco: Jennifer Aniston, Jake Gylenhaal, John C. Reilly, Tim Blake Nelson, John Carroll Lynch, Zooey Deschanel, Mike White. Estreia: 12/01/02 (Festival de Sundance)

Segundo consta, antes que começassem as filmagens de "Por um sentido na vida", a atriz Jennifer Aniston implorou ao diretor Miguel Arteta que a impedisse de repetir no filme - um drama baixo astral sobre uma mulher comum tentando dar cor à sua vida medíocre - os trejeitos cômicos que fizeram dela uma das atrizes mais populares do mundo, graças à série "Friends". Tentando mais uma vez provar aos críticos e ao público o seu talento dramático, Aniston não queria que Justine Last, sua personagem na obra de Arteta, lembrasse em absolutamente nada a avoada e volúvel Rachel Green. O pedido deu certo: elogiada unanimemente por seu desempenho, Aniston entregou um dos mais consistentes desempenhos de sua carreira em um papel denso, complexo e não exatamente simpático, que mostrou que, por trás de sua beleza, simpatia e do então casamento com Brad Pitt, existia uma atriz de muitas nuances à espera de serem exploradas.

Sem o glamour e a produção da série de TV, Aniston interpreta Justine, uma entediada e frustrada funcionária de um loja de descontos de uma cidade do interior dos EUA. Casada com o pouco ambicioso Phil (John C. Reilly), que vive de pintar casas e fumar maconha ao lado do sócio Bubba (Tim Blake Nelson), ela tem como maior expectativa de seus dias o momento de finalmente ficar grávida para injetar emoção em seu dia-a-dia. Esperando pacientemente uma virada em sua vida, ela conhece o novo colega de trabalho, o jovem Holden Worther (Jake Gyllenhaal), que deseja tornar-se escritor e mora com os pais depois de problemas com a justiça. Surge entre eles uma imediata identificação e não demora para que os dois iniciem uma tórrida relação proibida, cujas consequências se tornam cada vez mais perigosas e dramáticas conforme passam a envolver outras pessoas. Apaixonado por Justine, Holden - que emprestou seu pseudônimo do protagonista do romance "O apanhador no campo de centeio" - resolve fugir com a mulher amada, mas as coisas saem do controle quando uma testemunha do romance ilícito entre eles surge com uma chantagem inesperada que os leva a um dilema ainda maior.


Com um ritmo que desafia a velocidade quase histérica do cinema comercial americano, "Por um sentido na vida" mergulha o espectador dentro da morosidade e da mediocridade da vida de Justine para que ele consiga, dentro das possibilidades, compreender as atitudes da protagonista, frequentemente discutíveis ou pouco éticas. Até mesmo o título original - "a boa menina" - soa irônico diante do sinuoso caminho escolhido por ela para atingir seus objetivos nem sempre claros, mais por culpa de sua imaturidade e de sua insegurança do que por problemas de roteiro, escrito com uma concisão e uma delicadeza que permitem até mesmo um final agridoce e melancólico ao invés do previsível clímax melodramático ou exagerado. É lógico que para isso colabora também mais uma atuação exemplar de John C. Reilly, sempre eficientíssimo em dar vida a personagens presos a relacionamentos e vidas simples e pacatas. Seu Phil é uma vítima inocente do romance extraconjugal da esposa, uma espécie de Madame Bovary dos subúrbios americanos, que se envolve com uma encarnação moderna do jovem Werther criado por Goethe e se dirige, sem freios, a um destino talvez pior do que poderia esperar de sua existência modorrenta. Tal história é contada com sutileza por Miguel Arteta, que deixa nas mãos competentes de seu elenco explorar cada minúcia da personalidade de seus personagens, ricos em camadas a ponto de surpreender o próprio público com as reviravoltas da trama.

Mas é inegável que boa parte da força de "Por um sentido na vida" se deve ao trabalho irretocável de Jennifer Aniston, que deixa a vaidade de lado e apresenta à plateia um lado poucas vezes explorado anteriormente em sua carreira. Com um olhar vazio e um postura cansada, ela transmite em poucos diálogos um turbilhão de sentimentos e toda uma vida de insucessos que acabam fatalmente a jogá-la nos braços do igualmente desiludido Holden, que apesar da pouca idade, já acumula experiência o bastante para enxergar na colega de trabalho sua última chance de felicidade e realização. O encontro de tais almas - inquietas, sedentas por emoções, carentes - é o combustível para uma história triste, melancólica e desesperançosa, mas contada de forma enxuta e extremamente eficaz. Um pequeno grande filme.

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