A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader az Simin, 2011, Asghar Farhadi, 123min) Direção e roteiro: Asghar Farhadi. Fotografia: Mahmoud Kalari. Montagem: Hayedeh Safiyari. Música: Sattar Oraki. Direção de arte/cenários: Keyvan Moghaddam. Produção executiva: Negar Eskandarfar. Produção: Asghar Farhadi. Elenco: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini. Estreia: 15/02/11 (Festival de Berlim)
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Parece mentira, mas o cinema iraniano, lar de nomes como Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf e dono de uma filmografia consistente e respeitável, com grande enfoque na cultura e na política locais, não privava, por parte da Academia de Hollywood, do mesmo prestígio com que era visto em festivais internacionais, de onde frequentemente saía premiado - até 2012 a única indicação do país ao Oscar de filme estrangeiro havia sido pelo distante "Filhos do paraíso", de 1997. Até mesmo para ela, no entanto, foi impossível resistir à onda de aprovação e aplausos para "A separação", vencedor de 3 prêmios no Festival de Berlim (inclusive para todo o seu impressionante elenco) e do Golden Globe de melhor produção estrangeira. Nem sempre os eleitores do Oscar acertam - seria mais correto até dizer que os erros normalmente são mais comuns - mas basta uma única sessão do filme de Asghar Farhadi para se perceber que dessa vez eles não poderiam ter feito outra escolha: simples, direto e sem firulas estilísticas, "A separação" é um filme superlativo, excepcional, irretocável. Um dos melhores da década e, sem exagero, talvez um dos grandes filmes da história do cinema recente.
Grande não no sentido de grandioso. "A separação" é visualmente simples e
despojado, e aparentemente simples também em sua trama. As aparências,
nesse caso, enganam. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parte de
uma situação quase banal para fazer, a seu modo discreto mas
passional, uma pequena crônica social de seu país, onde a religião e as
leis são fatores imperativos e inquestionáveis. Distante da
filmografia quase contemplativa de Abbas Kiarostami - o mais célebre
cineasta iraniano - a obra de Farhadi é explosiva, intensa e emocional,
amparada em um elenco soberbo e em um roteiro tão cheio de
desdobramentos que resumí-lo é tirar dele boa parte de sua força. Arraigado em seus costumes e sua cultura e ainda assim universal em seus sentimentos, é uma obra-prima de roteiro, direção e interpretações.
O que pode-se dizer sobre a história de "A separação" sem estragar o
prazer de assistí-lo é que tudo começa quando Simin (Leila Hatami)
resolve pedir o divórcio, por entender que somente assim ela poderá
aproveitar o visto para sair do país e dar uma vida melhor para a filha
de dez anos de idade, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor e
premiada como melhor atriz em Berlim). O marido, Nader (Peyman Moadi)
não pode sair do Irã porque seu pai sofre de Alzheimer e, separado da
esposa, contrata Razieh (a ótima Sareh Bayat, que dividiu o Urso de Ouro
com Sarina Farhadi) para cuidar do velho enquanto ele está no
trabalho. Acontece que Razieh - que vai trabalhar sempre acompanhada da
filha pequena - está grávida e não declarou abertamente seu estado. A
omissão dessa gravidez, a tensão de Nader em relação à situação com a
família, a acusação de roubo que faz à empregada e a relação complicada de Razieh com o marido Hodjat (o
excelente Shahab Hosseini) são os ingredientes que farão com que uma
situação corriqueira se transforme em um terremoto na vida de todos os
envolvidos.
A trama de "A separação" é forte, enriquecida com os dogmas religiosos e
culturais de um país cuja dinâmica social ainda é quase uma incógnita
para a maioria dos ocidentais. Mesmo assim, tem um alcance humano raro e
uma inteligência dramática admirável. Farhadi pontilha sua história com pequenos detalhes - aparentemente insignificantes - que se tornam gigantescos diante dos desdobramentos do caso, e aponta sem medo sua câmera para o olhar ingênuo de seus personagens menos capazes de lidar com a pressão (o idoso doente, a filha pequena da empregada, a pré-adolescente sensível à situação e incapaz de consertá-la). Sua generosidade como roteirista - capaz de evitar apontar o dedo para qualquer um dos protagonistas e oferecendo a todos eles chances de redenção e justificativas morais e éticas - é refletida também na forma com que todos eles alternam momentos de ira e desespero com atos de gentileza e delicadeza (mesmo que involuntários). Essa identidade própria é que dá à "A separação" sua extraordinária qualidade, que a torna universal e inesquecível. A Academia pode ter demorado a reconhecer os méritos do cinema iraniano, mas quando o fez, foi em grande estilo.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
terça-feira
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ANTICRISTO
ANTICRISTO (Antichrist, 2009, Zentropa Entertainments, 108min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Anders Refn. Música: Kristian Eidnes Andersen. Figurino: Frauke Firl. Direção de arte/cenários: Karl 'Kalli' Juliusson/Tim Pannen. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg. Estreia: 18/5/09
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg)
Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.
Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.
Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.
Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg)
Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.
Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.
Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.
Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.
domingo
MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM
MARGIN CALL, O DIA ANTES DO FIM (Margin call, 2011, Before the Door Pictures, 107min) Direção e roteiro: J.C. Chandor. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Pete Beaudreau. Música: Nathan Larson. Figurino: Caroline Duncan. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: Joshua Blum, Michael Corso, Kirk D'Amico, Cassian Elwes, Rose Ganguzza, Anthony Gudas, Randy Manis, Laura Rister. Produção: Robert Ogden Barnum, Michael Benaroya, Neal Dodson, Joe Jenckes, Corey Moosa, , Zachary Quinto. Elenco: Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Demi Moore, Simon Baker, Mary McDonnell, Stanley Tucci, Penn Badgley. Estreia: 25/01/11 (Festival de Sundance)
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Pode até parecer chato, mas não é. "Margin Call - O dia antes do fim". escrito e dirigido por J.C. Chandor, apesar de tratar de um assunto relativamente inacessível à maioria do público - finanças, negociatas e afins - consegue surpreendentemente evitar os bocejos que filmes com essa temática normalmente despertam na audiência (vide o aborrecido "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", que apesar de Michael Douglas não escapava da chatice). Focalizando sua atenção mais na tensão de uma provável hecatombe monetária do que exatamente em tentar explicar didaticamente suas causas, Chandor marcou um gol de placa logo em seu primeiro filme, levando pra casa os prêmios de melhor diretor estreante tanto pelo National Board of Review quanto pela Associação de Críticos de Nova York, além de uma surpreendente indicação ao Oscar de roteiro original. A boa notícia? Ele mereceu.
"Margin Call" se passa em tensas 24 horas que precedem o que promete ser - segundo as personagens, todas especialistas no assunto - uma das mais graves crises financeiras já vistas pelos EUA (e consequentemente pelo mundo todo). Tudo começa com a demissão em massa de inúmeros funcionários de um milionário banco de investimentos nova-iorquino. Entre os infelizes desempregados está Eric Dale (Stanley Tucci, excepcional), que, na hora de sair do prédio, deixa nas mãos de um de seus assistentes, o jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto, um dos produtores do filme) um pen-drive com informações aterradoras sobre os negócios da empresa. Assustado com o que descobre, Peter e seu colega mais próximo Seth Bregman (Penn Badgley) entram em contato com seu superior imediato, Will Emerson (Paul Bettany), que também se choca com o que vê. A partir daí, o pânico passa a fazer parte da equação, principalmente quando entram em jogo figuras de um escalão muito maior da firma, como o experiente Sam Rogers (Kevin Spacey em um dos melhores momentos de sua carreira), a ambiciosa Sarah Robertson (Demi Moore) e o especialista Jared Cohen (Simon Baker). Juntos, todos eles se reunirão com aquele que irá decidir seus destinos, o poderoso John Tuld (Jeremy Irons, também magnífico).
Apesar de muitas vezes deixar o espectador perdido (em especial por não fazer questão de esclarecer a crise de maneira explícita), o ótimo roteiro de Chandor tem a sorte de contar com um dos mais espetaculares elencos reunidos nos últimos anos. É graças aos trabalhos repletos de silêncios reveladores de Spacey, Tucci, Irons e até mesmo Demi Moore que a trama do filme se sustenta. Se as cenas que se referem a dólares e percentuais passam batidos pela vasta maioria da audiência, os diálogos onde a humanidade de suas personagens se revela dá à obra um tom dramático irresistível (mesmo que exagero de espécie alguma passe pela tela). E são particularmente fascinantes as atuações de Kevin Spacey (relembrando a todos o porquê de ser um dos melhores atores americanos de sua geração) e Stanley Tucci (que merecia ter sido lembrado com uma indicação ao Oscar de coadjuvante).
Tendo passado despercebido pelos cinemas brasileiros - em boa parte por seu tema específico demais - "Margin call" é um filme de filigranas. A forma como Chandor equilibra todos os detalhes de seu roteiro sem nunca perder o fio da meda é admirável, especialmente quando se percebe que até mesmo subtramas aparentemente desnecessárias - caso da doença do cachorro do personagem de Spacey - tem razão de ser dentro do imenso quadro geral. Escrever um roteiro assim não é tarefa das mais fáceis. Dirigir um elenco com tantos nomes poderosos idem. Mas Chandor tira de letra o desafio em um filme que, a despeito de seu assunto, pode surpreender até ao menos interessado em finanças.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Pode até parecer chato, mas não é. "Margin Call - O dia antes do fim". escrito e dirigido por J.C. Chandor, apesar de tratar de um assunto relativamente inacessível à maioria do público - finanças, negociatas e afins - consegue surpreendentemente evitar os bocejos que filmes com essa temática normalmente despertam na audiência (vide o aborrecido "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", que apesar de Michael Douglas não escapava da chatice). Focalizando sua atenção mais na tensão de uma provável hecatombe monetária do que exatamente em tentar explicar didaticamente suas causas, Chandor marcou um gol de placa logo em seu primeiro filme, levando pra casa os prêmios de melhor diretor estreante tanto pelo National Board of Review quanto pela Associação de Críticos de Nova York, além de uma surpreendente indicação ao Oscar de roteiro original. A boa notícia? Ele mereceu.
"Margin Call" se passa em tensas 24 horas que precedem o que promete ser - segundo as personagens, todas especialistas no assunto - uma das mais graves crises financeiras já vistas pelos EUA (e consequentemente pelo mundo todo). Tudo começa com a demissão em massa de inúmeros funcionários de um milionário banco de investimentos nova-iorquino. Entre os infelizes desempregados está Eric Dale (Stanley Tucci, excepcional), que, na hora de sair do prédio, deixa nas mãos de um de seus assistentes, o jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto, um dos produtores do filme) um pen-drive com informações aterradoras sobre os negócios da empresa. Assustado com o que descobre, Peter e seu colega mais próximo Seth Bregman (Penn Badgley) entram em contato com seu superior imediato, Will Emerson (Paul Bettany), que também se choca com o que vê. A partir daí, o pânico passa a fazer parte da equação, principalmente quando entram em jogo figuras de um escalão muito maior da firma, como o experiente Sam Rogers (Kevin Spacey em um dos melhores momentos de sua carreira), a ambiciosa Sarah Robertson (Demi Moore) e o especialista Jared Cohen (Simon Baker). Juntos, todos eles se reunirão com aquele que irá decidir seus destinos, o poderoso John Tuld (Jeremy Irons, também magnífico).
Apesar de muitas vezes deixar o espectador perdido (em especial por não fazer questão de esclarecer a crise de maneira explícita), o ótimo roteiro de Chandor tem a sorte de contar com um dos mais espetaculares elencos reunidos nos últimos anos. É graças aos trabalhos repletos de silêncios reveladores de Spacey, Tucci, Irons e até mesmo Demi Moore que a trama do filme se sustenta. Se as cenas que se referem a dólares e percentuais passam batidos pela vasta maioria da audiência, os diálogos onde a humanidade de suas personagens se revela dá à obra um tom dramático irresistível (mesmo que exagero de espécie alguma passe pela tela). E são particularmente fascinantes as atuações de Kevin Spacey (relembrando a todos o porquê de ser um dos melhores atores americanos de sua geração) e Stanley Tucci (que merecia ter sido lembrado com uma indicação ao Oscar de coadjuvante).
Tendo passado despercebido pelos cinemas brasileiros - em boa parte por seu tema específico demais - "Margin call" é um filme de filigranas. A forma como Chandor equilibra todos os detalhes de seu roteiro sem nunca perder o fio da meda é admirável, especialmente quando se percebe que até mesmo subtramas aparentemente desnecessárias - caso da doença do cachorro do personagem de Spacey - tem razão de ser dentro do imenso quadro geral. Escrever um roteiro assim não é tarefa das mais fáceis. Dirigir um elenco com tantos nomes poderosos idem. Mas Chandor tira de letra o desafio em um filme que, a despeito de seu assunto, pode surpreender até ao menos interessado em finanças.
sábado
O ABRIGO
O ABRIGO (Take shelter, 2011, Hydraulx/REI Capital/Grove Hill Productions, 121min) Direção e roteiro: Jeff Nichols. Fotografia: Adam Stone. Montagem: Parke Gregg. Música: David Wingo. Figurino: Karen Malecki. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Adam Willis. Produção executiva: Sarah Green, Brian Kavanaugh-Jones, Christos Konstantakopoulos, Chris Perot, Richard Rothfeld, Colin Strause, Gregg Strause. Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Kathy Baker, Tova Stewart, Shea Whigham. Estreia: 24/01/11 (Festival de Sundance)
Por sua atuação em "Foi apenas um sonho", de 2008, o ator Michael Shannon recebeu uma inesperada indicação ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para a incensada atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas". Foi três anos depois, porém, que ele entregou o mais intenso e impressionante desempenho de sua carreira (até hoje): em "O abrigo", suspense dramático dirigido por Jeff Nichols - cineasta independente com quem ele já havia trabalhado anteriormente em "Separados pelo sangue" - Shannon conduz o espectador a um claustrofóbico pesadelo familiar, utilizando-se, para isso, somente de seu superlativo talento e de um roteiro enxuto, conciso e que se recusa a entregar soluções óbvias. A anos-luz de distância de um filme de suspense convencional, a obra de Nichols depende da capacidade do público de envolver-se em uma trama de viés mais psicológico que físico, mas premia aos corajosos com uma história intrigante, que prende a atenção da primeira à última cena - graças, também, à participação da sempre excelente Jessica Chastain.
De estrutura simples e desenvolvimento suave, "O abrigo" centra seu foco em Curtis (interpretado com precisão cirúrgica por Shannon), um homem aparentemente comum, operário da construção civil de uma pequena cidade da zona rural de Ohio, casado com a bela e compreensiva Samantha (Jessica Chastain) e pai de uma adorável menina com deficiência auditiva. A tranquilidade de sua vida, porém, é apenas superficial, já que, internamente, Curtis passa por um turbilhão desesperador: do nada, ele passa a ter alucinações visuais e auditivas que o fazem acreditar em uma possível - e iminente - tormenta de proporções apocalípticas. Além disso, pesadelos bastante reais o levam a afastar-se da família e do melhor amigo e colega de trabalho. Ciente das possibilidades de uma doença mental congênita - já que sua mãe vive em um hospital psiquiátrico, diagnosticada como esquizofrênica - Curtis procura tratamento, mas aos poucos as coisas começam a fugir de seu controle, a ponto de dar a ele a ideia de reformar um abrigo anti-nuclear que mantém no quintal de sua casa.
Evitando sustos baratos e seguindo o caminho mais difícil - e inteligente - da sugestão, o roteiro de Jeff Nichols caminha com ritmo próprio, apresentando aos poucos todos os desdobramentos de sua trama, que é bem mais complexa do que aparenta em um primeiro vislumbre. Mais do que questionar se seu protagonista é alguém dotado de sensibilidade extrassensorial ou apenas um homem em vias de um violento colapso mental, Nichols investiga também sua dinâmica familiar e a forma como ela se altera conforme sua sanidade vai sendo minada por suas tétricas visões. Essa caminhada rumo à loucura - ou será que as visões são realmente avisos de uma hecatombe próxima? - é pavimentada por um visual seco e direto, pincelado aqui e acolá com efeitos visuais discretos mas eficazes e uma trilha sonora pontual, que sublinha os momentos de maior intensidade da trama. Essa intensidade toda, no entanto, seria bem menor não fosse a atuação irrepreensível de Michael Shannon.
Apoiado pelo desempenho discreto e sensível de Jessica Chastain, Shannon empresta à Curtis uma força que vai se avolumando no decorrer da narrativa, se equilibrando com maestria entre oásis de tranquilidade e furacões de angústia - como a sensacional sequência em um jantar com a comunidade local, em que o protagonista explode quando pressionado pelas circunstâncias e mostra a todos a dimensão de seu desespero. Se alguém ainda tinha dúvidas a respeito do talento do ator até então, se vê diante de uma interpretação das mais intensas e corajosas, capaz de segurar um filme inteiro nas costas e fazer com que qualquer um acredite na sua verdade. Uma performance impecável em um filme raro, daqueles que melhoram a cada revisão. Imperdível!
Por sua atuação em "Foi apenas um sonho", de 2008, o ator Michael Shannon recebeu uma inesperada indicação ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para a incensada atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas". Foi três anos depois, porém, que ele entregou o mais intenso e impressionante desempenho de sua carreira (até hoje): em "O abrigo", suspense dramático dirigido por Jeff Nichols - cineasta independente com quem ele já havia trabalhado anteriormente em "Separados pelo sangue" - Shannon conduz o espectador a um claustrofóbico pesadelo familiar, utilizando-se, para isso, somente de seu superlativo talento e de um roteiro enxuto, conciso e que se recusa a entregar soluções óbvias. A anos-luz de distância de um filme de suspense convencional, a obra de Nichols depende da capacidade do público de envolver-se em uma trama de viés mais psicológico que físico, mas premia aos corajosos com uma história intrigante, que prende a atenção da primeira à última cena - graças, também, à participação da sempre excelente Jessica Chastain.
De estrutura simples e desenvolvimento suave, "O abrigo" centra seu foco em Curtis (interpretado com precisão cirúrgica por Shannon), um homem aparentemente comum, operário da construção civil de uma pequena cidade da zona rural de Ohio, casado com a bela e compreensiva Samantha (Jessica Chastain) e pai de uma adorável menina com deficiência auditiva. A tranquilidade de sua vida, porém, é apenas superficial, já que, internamente, Curtis passa por um turbilhão desesperador: do nada, ele passa a ter alucinações visuais e auditivas que o fazem acreditar em uma possível - e iminente - tormenta de proporções apocalípticas. Além disso, pesadelos bastante reais o levam a afastar-se da família e do melhor amigo e colega de trabalho. Ciente das possibilidades de uma doença mental congênita - já que sua mãe vive em um hospital psiquiátrico, diagnosticada como esquizofrênica - Curtis procura tratamento, mas aos poucos as coisas começam a fugir de seu controle, a ponto de dar a ele a ideia de reformar um abrigo anti-nuclear que mantém no quintal de sua casa.
Evitando sustos baratos e seguindo o caminho mais difícil - e inteligente - da sugestão, o roteiro de Jeff Nichols caminha com ritmo próprio, apresentando aos poucos todos os desdobramentos de sua trama, que é bem mais complexa do que aparenta em um primeiro vislumbre. Mais do que questionar se seu protagonista é alguém dotado de sensibilidade extrassensorial ou apenas um homem em vias de um violento colapso mental, Nichols investiga também sua dinâmica familiar e a forma como ela se altera conforme sua sanidade vai sendo minada por suas tétricas visões. Essa caminhada rumo à loucura - ou será que as visões são realmente avisos de uma hecatombe próxima? - é pavimentada por um visual seco e direto, pincelado aqui e acolá com efeitos visuais discretos mas eficazes e uma trilha sonora pontual, que sublinha os momentos de maior intensidade da trama. Essa intensidade toda, no entanto, seria bem menor não fosse a atuação irrepreensível de Michael Shannon.
Apoiado pelo desempenho discreto e sensível de Jessica Chastain, Shannon empresta à Curtis uma força que vai se avolumando no decorrer da narrativa, se equilibrando com maestria entre oásis de tranquilidade e furacões de angústia - como a sensacional sequência em um jantar com a comunidade local, em que o protagonista explode quando pressionado pelas circunstâncias e mostra a todos a dimensão de seu desespero. Se alguém ainda tinha dúvidas a respeito do talento do ator até então, se vê diante de uma interpretação das mais intensas e corajosas, capaz de segurar um filme inteiro nas costas e fazer com que qualquer um acredite na sua verdade. Uma performance impecável em um filme raro, daqueles que melhoram a cada revisão. Imperdível!
sexta-feira
UM ATO DE LIBERDADE
UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, 2008, Paramount Vantage, 137min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Clayton Frohman, Edward Zwick, livro "Defiance: the Bielski Partisans", de Nechama Tec. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Veronique Melery. Produção executiva: Marshall Herskovitz. Produção: Pieter Jan Brugge, Edward Zwick. Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Mark Feuerstein, Mia Wasikowska, Alexa Davalos, Allan Corduner. Estreia: 31/12/08
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.
Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).
Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.
Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.
"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.
Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).
Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.
Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.
"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.
quarta-feira
BRAVURA INDÔMITA
BRAVURA INDÔMITA (True grit, 2010, Paramount Pictures, 110min) Direção: Joel Coen, Ethan Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, romance de Charles Portis. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: David Ellison, Megan Ellison, Robert Graf, Paul Schwake, Steven Spielberg. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Domhnall Gleeson. Estreia: 14/12/10
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
“Onde os fracos não tem vez”, que
conquistou a Academia em 2007, já tinha os dois pés cravados em alguns dos mais
fortes cânones do western, mas os irmãos Coen – que já haviam brincado com
sucesso com vários gêneros caros ao cinema americano – ainda não tinham
assinado um faroeste tradicional, daqueles com cavalos, tiroteios heróicos,
xerifes, mocinhas valentes e crepúsculos espetaculares. “Bravura indômita”,
lançado em 2010, acabou com essa falha. Baseado no romance de Charles Portis
que também foi a base do filme de mesmo nome que deu o Oscar de melhor ator a
John Wayne, o remake da dupla que já havia revirado os elementos do cinema noir
(“Gosto de sangue” e “O homem que não estava lá”), das comédias
malucas(“Arizona nunca mais”), dos filmes de gângsters (“Ajuste final”), dos
musicais (“E aí, meu irmão cadê você?”) e das comédias românticas (“O amor
custa caro”) é um exemplo típico do melhor que o cinemão hollywoodiano pode
oferecer ao público quando se trata de narrativas clássicas. Bem escrito – com
diálogos inteligentes e salpicados do humor típico dos diretores – e dirigido
com extrema competência, é um filme capaz de agradar aos mais exigentes fãs do
gênero e, de quebra, arrebanhar cinéfilos que nunca foram muito entusiastas de
duelos ao sol.
Indicado a dez Oscar na cerimônia de
2011 dominada pela mediocridade de “O discurso do rei”, “Bravura indômita”
mereceu cada uma de suas indicações. Com uma realização impecável – a mais
requintada da carreira dos diretores – o filme transcende tanto o livro no qual
é baseado quanto o original lançado em 1960. Dotada de uma irreverência e um
sarcasmo apenas ensaiado no filme anterior, essa nova versão oferece ao
espectador uma trama cujos conceitos de heroísmo, vingança e justiça são bem
mais elásticos e coerentes com uma geração que certamente rejeitaria o
maniqueísmo inerente aos gloriosos tempos do gênero, onde as mulheres
normalmente eram relegadas a segundo plano. Só por ter como protagonista uma
mulher – ou melhor dizendo, uma adolescente de 14 anos – “Bravura indômita” já
mostra que tem mais a dizer do que a maioria de seus pares. Indicada
inexplicavelmente ao Oscar de atriz coadjuvante – já que sua Mattie Ross é a
personagem central da trama – a novata Hailee Steinfeld se mostra à altura do
desafio, encarando sem medo a oportunidade de enfrentar, logo em sua estreia
nas telas, nomes como Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin.
Mattie Ross, a personagem de
Steinfeld, é uma jovem que chega a uma pequena cidade do interior para reclamar
o corpo do pai, covardemente assassinado por um empregado, Tom Chaney (Josh
Brolin, assustador). Dotada de uma coragem sem igual, ela quer, na verdade,
caçar o criminoso e entregá-lo à justiça. Para isso, ela chega até o lendário
Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que há muito já deixou para trás seus melhores
dias como caçador de recompensas. Aceitando a proposta da menina – teimosa e
pouco afeita às delicadezas femininas que ele, bêbado e acostumado com o
violento universo masculino de carteados e assassinatos – de buscar Chaney,
Cogburn acaba se surpreendendo quando a própria contratante resolve
acompanhá-lo na missão. Depois de uma série de discussões, os dois iniciam a
jornada, juntamente com o xerife LaBoeuf (Matt Damon), também com razões de
sobra para querer por as mãos no fora-da-lei.
Com essa história simples em mãos,
Ethan e Joel Coen apagam a má impressão que deixaram com sua experiência
anterior em remakes – quando transformaram “Quinteto da morte” no sem graça
“Matadores de velhinhas” – e realizam um de seus melhores filmes. Normalmente acostumados
a trabalhar com material próprio, eles acabam por transformar a história de
Charles Portis em um território fértil para seu jeito particular de fazer
cinema, salpicando de humor e uma certa estranheza uma trama aparentemente
banal. Juntamente com cenas de estonteante beleza – cortesia da fotografia
excepcional de Roger Deakins, que se aproveita dos cenários naturais para
construir sequências de encher os olhos – os diretores apresentam uma visão ao
mesmo tempo carinhosa e irônica a um gênero constantemente em processo de
mutação e redescoberta pelo público. Avessos à violência explícita, eles não
hesitam em mostrar corpos em putrefação quando necessário, mas evitam utilizá-la
como artifício narrativo primordial, concentrando seu foco na relação entre o
trio de personagens principais – uma relação calcada em um misto de admiração,
desprezo e solidariedade que somente um roteiro tão repleto de nuances é capaz
de apresentar sem parecer esquizofrênico ou incoerente. E além do senso de
ritmo invejável – quando a história parece querer esfriar o temido Chaney entra
em cena para agitar as coisas – os irmãos Coen também dão a Jeff Bridges mais
um personagem dos melhores em sua carreira.
Brigão, ranzinza e politicamente
incorreto, Rooster Cogburn deu John
Wayne seu único Oscar e quase deu a Bridges sua segunda estatueta apenas um ano
depois de sua primeira vitória pelo cantor country de “Coração louco”. Sem medo
das comparações com a clássica interpretação de um dos atores mais fortemente
vinculados ao western americano, Bridges injetou a Cogburn um senso de humor
ácido que combina com exatidão com a visão quase iconoclasta dos cineastas, que
respeitam os elementos do faroeste sem precisar, para isso, ater-se à visão
normalmente preconceituosa com que os filmes do gênero apresentavam de
mulheres, indígenas e afins. O “Bravura indômita” do século XXI não entra em
discussões sexistas ou raciais, preferindo abster-se de polêmicas e apenas
contar, da melhor forma possível, uma boa história. Contando com a ajuda de um
grande orçamento – e a produção executiva de Steven Spielberg – os oscarizados
irmãos cineastas/roteiristas juntaram uma equipe técnica impecável, um elenco
acima de qualquer suspeita, uma trama já testada e aprovada por várias gerações
de cinéfilos e seu talento imenso para criar um novo clássico. Mesmo tendo
perdido todos os Oscar a que concorria – injustamente, diga-se de passagem –
“Bravura indômita” é um filme a ser lembrado como um perfeito exemplo do
cinemão que só Hollywood é capaz de fazer.
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