terça-feira, 25 de agosto de 2015

A SEPARAÇÃO

A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader az Simin, 2011, Asghar Farhadi, 123min) Direção e roteiro: Asghar Farhadi. Fotografia: Mahmoud Kalari. Montagem: Hayedeh Safiyari. Música: Sattar Oraki. Direção de arte/cenários: Keyvan Moghaddam. Produção executiva: Negar Eskandarfar. Produção: Asghar Farhadi. Elenco: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini. Estreia: 15/02/11 (Festival de Berlim)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Parece mentira, mas o cinema iraniano, lar de nomes como Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf e dono de uma filmografia consistente e respeitável, com grande enfoque na cultura e na política locais, não privava, por parte da Academia de Hollywood, do mesmo prestígio com que era visto em festivais internacionais, de onde frequentemente saía premiado - até 2012 a única indicação do país ao Oscar de filme estrangeiro havia sido pelo distante "Filhos do paraíso", de 1997. Até mesmo para ela, no entanto, foi impossível resistir à onda de aprovação e aplausos para "A separação", vencedor de 3 prêmios no Festival de Berlim (inclusive para todo o seu impressionante elenco) e do Golden Globe de melhor produção estrangeira. Nem sempre os eleitores do Oscar acertam - seria mais correto até dizer que os erros normalmente são mais comuns - mas basta uma única sessão do filme de Asghar Farhadi para se perceber que dessa vez eles não poderiam ter feito outra escolha: simples, direto e sem firulas estilísticas, "A separação" é um filme superlativo, excepcional, irretocável. Um dos melhores da década e, sem exagero, talvez um dos grandes filmes da história do cinema recente.

Grande não no sentido de grandioso. "A separação" é visualmente simples e despojado, e aparentemente simples também em sua trama. As aparências, nesse caso, enganam. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parte de uma situação quase banal para fazer, a seu modo discreto mas passional, uma pequena crônica social de seu país, onde a religião e as leis são fatores imperativos e inquestionáveis. Distante da filmografia quase contemplativa de Abbas Kiarostami - o mais célebre cineasta iraniano - a obra de Farhadi é explosiva, intensa e emocional, amparada em um elenco soberbo e em um roteiro tão cheio de desdobramentos que resumí-lo é tirar dele boa parte de sua força. Arraigado em seus costumes e sua cultura e ainda assim universal em seus sentimentos, é uma obra-prima de roteiro, direção e interpretações.


O que pode-se dizer sobre a história de "A separação" sem estragar o prazer de assistí-lo é que tudo começa quando Simin (Leila Hatami) resolve pedir o divórcio, por entender que somente assim ela poderá aproveitar o visto para sair do país e dar uma vida melhor para a filha de dez anos de idade, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor e premiada como melhor atriz em Berlim). O marido, Nader (Peyman Moadi) não pode sair do Irã porque seu pai sofre de Alzheimer e, separado da esposa, contrata Razieh (a ótima Sareh Bayat, que dividiu o Urso de Ouro com Sarina Farhadi) para cuidar do velho enquanto ele está no trabalho. Acontece que Razieh - que vai trabalhar sempre acompanhada da filha pequena - está grávida e não declarou abertamente seu estado. A omissão dessa gravidez, a tensão de Nader em relação à situação com a família, a acusação de roubo que faz à empregada e a relação complicada de Razieh com o marido Hodjat (o excelente Shahab Hosseini) são os ingredientes que farão com que uma situação corriqueira se transforme em um terremoto na vida de todos os envolvidos.

A trama de "A separação" é forte, enriquecida com os dogmas religiosos e culturais de um país cuja dinâmica social ainda é quase uma incógnita para a maioria dos ocidentais. Mesmo assim, tem um alcance humano raro e uma inteligência dramática admirável. Farhadi pontilha sua história com pequenos detalhes - aparentemente insignificantes - que se tornam gigantescos diante dos desdobramentos do caso, e aponta sem medo sua câmera para o olhar ingênuo de seus personagens menos capazes de lidar com a pressão (o idoso doente, a filha pequena da empregada, a pré-adolescente sensível à situação e incapaz de consertá-la). Sua generosidade como roteirista - capaz de evitar apontar o dedo para qualquer um dos protagonistas e oferecendo a todos eles chances de redenção e justificativas morais e éticas - é refletida também na forma com que todos eles alternam momentos de ira e desespero com atos de gentileza e delicadeza (mesmo que involuntários). Essa identidade própria é que dá à "A separação" sua extraordinária qualidade, que a torna universal e inesquecível. A Academia pode ter demorado a reconhecer os méritos do cinema iraniano, mas quando o fez, foi em grande estilo.

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