segunda-feira, 24 de agosto de 2015

ANTICRISTO

ANTICRISTO (Antichrist, 2009, Zentropa Entertainments, 108min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Anders Refn. Música: Kristian Eidnes Andersen. Figurino: Frauke Firl. Direção de arte/cenários: Karl 'Kalli' Juliusson/Tim Pannen. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg. Estreia: 18/5/09

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg) 

Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.

Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.


Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.

Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.

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