domingo, 23 de agosto de 2015

MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM

MARGIN CALL, O DIA ANTES DO FIM (Margin call, 2011, Before the Door Pictures, 107min) Direção e roteiro: J.C. Chandor. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Pete Beaudreau. Música: Nathan Larson. Figurino: Caroline Duncan. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: Joshua Blum, Michael Corso, Kirk D'Amico, Cassian Elwes, Rose Ganguzza, Anthony Gudas, Randy Manis, Laura Rister. Produção: Robert Ogden Barnum, Michael Benaroya, Neal Dodson, Joe Jenckes, Corey Moosa, , Zachary Quinto. Elenco: Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Demi Moore, Simon Baker, Mary McDonnell, Stanley Tucci, Penn Badgley. Estreia: 25/01/11 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Pode até parecer chato, mas não é. "Margin Call - O dia antes do fim". escrito e dirigido por J.C. Chandor, apesar de tratar de um assunto relativamente inacessível à maioria do público - finanças, negociatas e afins - consegue surpreendentemente evitar os bocejos que filmes com essa temática normalmente despertam na audiência (vide o aborrecido "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", que apesar de Michael Douglas não escapava da chatice). Focalizando sua atenção mais na tensão de uma provável hecatombe monetária do que exatamente em tentar explicar didaticamente suas causas, Chandor marcou um gol de placa logo em seu primeiro filme, levando pra casa os prêmios de melhor diretor estreante tanto pelo National Board of Review quanto pela Associação de Críticos de Nova York, além de uma surpreendente indicação ao Oscar de roteiro original. A boa notícia? Ele mereceu.

"Margin Call" se passa em tensas 24 horas que precedem o que promete ser - segundo as personagens, todas especialistas no assunto - uma das mais graves crises financeiras já vistas pelos EUA (e consequentemente pelo mundo todo). Tudo começa com a demissão em massa de inúmeros funcionários de um milionário banco de investimentos nova-iorquino. Entre os infelizes desempregados está Eric Dale (Stanley Tucci, excepcional), que, na hora de sair do prédio, deixa nas mãos de um de seus assistentes, o jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto, um dos produtores do filme) um pen-drive com informações aterradoras sobre os negócios da empresa. Assustado com o que descobre, Peter e seu colega mais próximo Seth Bregman (Penn Badgley) entram em contato com seu superior imediato, Will Emerson (Paul Bettany), que também se choca com o que vê. A partir daí, o pânico passa a fazer parte da equação, principalmente quando entram em jogo figuras de um escalão muito maior da firma, como o experiente Sam Rogers (Kevin Spacey em um dos melhores momentos de sua carreira), a ambiciosa Sarah Robertson (Demi Moore) e o especialista Jared Cohen (Simon Baker). Juntos, todos eles se reunirão com aquele que irá decidir seus destinos, o poderoso John Tuld (Jeremy Irons, também magnífico).


Apesar de muitas vezes deixar o espectador perdido (em especial por não fazer questão de esclarecer a crise de maneira explícita), o ótimo roteiro de Chandor tem a sorte de contar com um dos mais espetaculares elencos reunidos nos últimos anos. É graças aos trabalhos repletos de silêncios reveladores de Spacey, Tucci, Irons e até mesmo Demi Moore que a trama do filme se sustenta. Se as cenas que se referem a dólares e percentuais passam batidos pela vasta maioria da audiência, os diálogos onde a humanidade de suas personagens se revela dá à obra um tom dramático irresistível (mesmo que exagero de espécie alguma passe pela tela). E são particularmente fascinantes as atuações de Kevin Spacey (relembrando a todos o porquê de ser um dos melhores atores americanos de sua geração) e Stanley Tucci (que merecia ter sido lembrado com uma indicação ao Oscar de coadjuvante).

Tendo passado despercebido pelos cinemas brasileiros - em boa parte por seu tema específico demais - "Margin call" é um filme de filigranas. A forma como Chandor equilibra todos os detalhes de seu roteiro sem nunca perder o fio da meda é admirável, especialmente quando se percebe que até mesmo subtramas aparentemente desnecessárias - caso da doença do cachorro do personagem de Spacey - tem razão de ser dentro do imenso quadro geral. Escrever um roteiro assim não é tarefa das mais fáceis. Dirigir um elenco com tantos nomes poderosos idem. Mas Chandor tira de letra o desafio em um filme que, a despeito de seu assunto, pode surpreender até ao menos interessado em finanças.

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