terça-feira, 28 de setembro de 2010

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of love, 1989, Universal Pictures, 112min) Direção: Harold Becker. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: David Bretherton. Música: Trevor Jones. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: John Jay Moore/Gordon Sim. Casting: Mary Colquhoun. Produção: Martin Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman, Richard Jenkins, Michael Rooker, William Hickey, Samuel L. Jackson. Estreia: 15/9/89

Foi preciso 4 anos para que Al Pacino se recuperasse do trauma de "Revolução", lançado em 1985. Fracasso de crítica e de público, o filme  afastou Pacino das telas por um longo período, em que o ator que deu vida a personagens antológicas como Michael Corleone e Serpico, dedicou-se ao teatro, sua maior paixão. Seu retorno, em 1989, pode não ter sido em um filme com potencial de Oscar ou algo parecido, mas provou que seu carisma ainda tinha fãs o suficiente para lotar salas de cinema. "Vítimas de uma paixão", o veículo que o devolveu às telas, é um policial eficiente que adiciona ao gênero um elemento que viraria moeda corrente poucos anos depois: uma alta carga erótica.

Ainda que bem menos explícito do que "Instinto selvagem", por exemplo, "Vítimas de uma paixão" recorre a tórridas cenas entre seus protagonistas, mas, ao contrário do filme que elevou Sharon Stone ao status de musa sexy absoluta dos anos 90, aqui as cenas de sexo funcionam não para estabelecer um estado de dominação física, mas principalmente como um canal para deixar claro as carências de suas personagens centrais, ambos perdidos em um mar não de amor como diz a canção-título, mas de solidão e melancolia. Se não, vejamos.


Frank Keller (vivido por um Pacino menos agressivo e mais sutil) é um policial de Nova York que ainda não aceitou o fato de perder a esposa para um colega de trabalho (Richard Jenkins). Utilizando o álcool como válvula de escape para suas noites tediosas, ele acaba envolvido na investigação de uma série de crimes: homens que publicaram anúncios em jornal procurando mulheres estão sendo assassinados a tiros, enquanto um disco de 48rpm com a canção "Sea of love" jaz no toca-discos. Para pegar a assassina, Keller e seu parceiro tem a ideia de publicar anúncios, também, e assim, de posse das impressões digitais das suspeitas, chegar até a criminosa. No entanto, o policial, solitário e triste, se apaixona por Helen (Ellen Barkin), uma mãe solteira que trabalha como vendedora de sapatos e, no auge de seus sentimentos, passa a negar, inclusive pra si mesmo, que ela pode ser a responsável por todas as mortes.



O mais inteligente do roteiro do escritor Richard Price é a sua opção em não fixar-se única e exclusivamente na investigação policial nem tampouco na relação íntima entre Keller e Helen. Ao equilibrar esses dois polos da ação, ele consegue tanto agradar aos fãs de filmes policiais quanto àqueles que procuram algo mais no gênero - no caso, um estudo, ainda que não exatamente profunda, como convém, da solidão. Os dois protagonistas são pessoas comuns que tentam, cada um a sua maneira, sobreviver em um mundo individualista, com seus problemas pessoais ameaçando perigosamente sua felicidade. Enquanto a plateia acompanha a busca pela violenta assassina de homens solitários, o filme de Harold Becker aproveita para contar uma pungente história de amor e falta de esperança.

"Vítimas de uma paixão" não é - e nem se pretende - um filme para ficar marcado na mente da audiência como uma obra-prima do gênero. Mas ao fugir do feijão-com-arroz básico, atinge um patamar acima dos seus congêneres. E contar com Al Pacino como protagonista é sempre uma ajuda e tanto!

Um comentário:

Hugo disse...

Você escreveu bem, o filme vale por ser a volta de Al Pacino após quatro anos longe do cinema.

As cenas quentes se transformaram em marca da atriz Ellen Barkin, que "repetiu" o papel diversas vezes no cinema.

Abraço