quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

CASSINO

CASSINO (Casino, 1995, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese, livro de Nicholas Pileggi. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Dunn, Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Rick Simpson. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak. Estreia: 22/11/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Sharon Stone)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sharon Stone)

A filmografia de Martin Scorsese é, mais do que qualquer outra do cinema americano contemporâneo, uma filmografia que é melhor descrita por uma profusão de adjetivos. Depois do belo, romântico, devastador e opulento "A época da inocência", em que o cineasta exercitou seu lado menos violento - fisicamente falando - ele entregou à plateia o visceral, vigoroso, arrebatador e tenso "Cassino", em que volta a seu habitat natural com a mesma força que imprimiu em "Os bons companheiros", com quem, aliás, este seu filme dialoga em inúmeros momentos de estilo. Pode-se dizer que "Cassino" é o irmão mais velho e mais tranquilo de "Os bons companheiros", ainda que seja tão violento e amoral quanto.

Mais uma vez, como é costume em sua obra, Scorsese conta a história de um homem cercado de inimigos por todos os lados. No entanto, se em "Taxi driver" os rivais de Travis Bickle estavam em sua mente distorcida e em "Touro indomável" a paranoia de Jake LaMotta mostrava-se injustificada, em "Cassino" as ameaças contra o protagonista Sam Rothstein são bem concretas e tem a forma das pessoas que ele mais ama: a esposa - ex-prostituta e viciada em drogas e o melhor amigo - um gângster beligerante e temperamental. Tal como uma personagem de tragédias shakespereanas, Rothstein vive em constante tensão e medo... e pessoas com medo tendem a ser perigosas, como todo mundo sabe.

Baseado em um livro do escritor Nicholas Pileggi - cujos direitos foram comprados para o cinema antes mesmo do lançamento - "Cassino" é tudo que se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorsese (e lá veem de novo mais adjetivos): é cruel, é ágil, é tecnicamente impecável, excitante e chocante, com direito a algumas das cenas mais violentas do cinema ianque nos anos 90. Dirigido com uma energia e uma paixão explícitas, é também um exercício de estilo e a prova inconteste de que, sob o comando de um diretor de verdade, Sharon Stone, além de linda e sexy é uma atriz de grande garra e talento. Premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela consegue um feito raro: ofuscar Robert DeNiro e  Joe Pesci (repetindo trejeitos de seu trabalho oscarizado de "Os bons companheiros".



Belíssima, elegante e chique mesmo cheirando carreiras e mais carreiras de cocaína, Stone vive (de corpo e alma) Ginger McKenna, uma prostituta de luxo que cai nas graças de Sam Rothstein (Robert DeNiro em um de seus últimos bons momentos nos últimos 15 anos), o gângster judeu que controla o Tangiers, um dos maiores cassinos de Las Vegas. Incapaz de manter-se fiel ao marido - em especial porque é dependente do ex-cafetão Lester Diamond (James Woods, sensacional) - ela acaba sendo a maior responsável, junto com Nicky Santoro (Joe Pesci), pela derrocada moral e financeira do marido. Mesmo que não seja a protagonista absoluta do filme - é quase uma coadjuvante, ainda que de bastante peso - Stone é o catalisador de todas as ações e reações da trama. Mesmo que incontáveis crimes aconteçam a seu redor - e Scorsese faz questão de mostrá-los em detalhes - é em Ginger que Sam Rothstein foca sua vida. E talvez justamente aí resida seu maior erro.

"Cassino" usa e abusa de cortes e movimentos de câmera ousados e complexos. Levando ao ápice a estrutura testada com propriedade em "Os bons companheiros", o cineasta e sua editora Thelma Schoonmaker exigem atenção extrema da plateia, ao alternar não apenas uma narração em off, mas duas: a história é contada sob os diferentes pontos de vista tanto de Rothstein quanto de Nicky Santoro, o que faz com que cada pequeno detalhe seja de importância sumária para o entendimento da história contada. Nunca Scorsese foi tão visual quanto em "Cassino": os cenários, os figurinos exuberantes, a edição e o uso exemplar da trilha sonora são elementos de uma orquestra regida com maestria por um cineasta no auge de sua maturidade artística. É de se questionar apenas por que a Academia praticamente ignorou mais essa obra-prima sua em detrimento de bobagens sentimentalóides como "Apollo 13". Apenas Sharon Stone foi indicada ao Oscar mas, apesar de ser quase uma favorita, perdeu a estatueta para Susan Sarandon.

"Cassino" é uma tour de force de um cineasta acostumado a presentear seu público com filmes no mínimo imperdíveis. É longo, mas ágil o bastante para jamais cansar o espectador. É violento, mas nunca chocante demais para afugentar os mais sensíveis. E é, acima de tudo, uma história contada com absoluto domínio da técnica cinematográfica.

4 comentários:

Hugo disse...

Você escreveu bem, "Cassino" é uma espécie de irmãos mais velho de "Os Bons Companheiros".

Como sempre Scorsese acerta ao misturar uma boa história repleta de personagens marginais, com boa dose de violência.

Posso ser parecida com a atuação de "Os Bons Companheiros", mas a fúria de Joe Pesci é sensacional nos dois filmes.

De Niro, Sharon Stone e James Woods completam o belo elenco com qualidade.

Abraço

renatocinema disse...

Entre todas as parceria de Scorsese e De Niro essa foi a que menos me agradou. Mesmo assim gosto do filme.

Anônimo disse...

Conseils tres interessants. A quand la suite?

Silvano Vianna disse...

Muito bom.
Realmente os personagens de Pesci se parecem. Mas os bons companheiros o núcleo é mais de "amigos" e acho que em Cassino existem mais conflitos. Sharon tb vai muito bem.