quinta-feira

AS PONTES DE MADISON

AS PONTES DE MADISON (The bridges of Madison County, 1995, Warner Bros/Amblin Entertainment/Malpaso Productions, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Robert James Waller. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção: Kathleen Kennedy, Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep, Jim Haynie, Annie Corley, Victor Slezak. Estreia: 02/6/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)

Em 1988 Clint Eastwood lançou "Bird", a cinebiografia do músico Charlie Parker e surpreendeu crítica e público com a sensibilidade e o ritmo com que tratou o tema - além de ter dado a melhor oportunidade até então a Forest Whitaker. Depois de ganhar o Oscar por "Os imperdoáveis", um faroeste contemplativo e melancólico, o velho Dirty Harry começou a convencer realmente de que, por trás de uma fachada seca e impenetrável, havia um ser humano com sentimentos profundos. A certeza dessa afirmação veio com "As pontes de Madison", em que o diretor se aventurou pela primeira vez em um gênero estranho à sua obra: o drama romântico. Adaptado de um romance água-com-açúcar de Robert James Waller, o filme é um petardo emocional capaz de comover o mais empedernido dos espectadores. Não há como, nos minutos finais de projeção, não cair em lágrimas, senão pela história - que esbarra em alguns clichês, como é natural - ao menos pelo trabalho irretocável de Meryl Streep no papel que lhe deu mais uma infrutífera indicação ao Oscar.

Uma poderosa história de amor, perda e de como certos momentos podem definir uma vida inteira, "As pontes de Madison" começa com sua protagonista, Francesca Johnson (Meryl Streep, em uma monumental atuação) morta. De herança a seu casal de filhos de meia-idade ela deixa um testamento onde pede para ser cremada e ter suas cinzas jogadas em uma ponte e três cadernos de anotações onde conta uma história mantida a sete chaves dentro de seu coração. Abismados, os dois tem contato, então, com um lado de sua mãe que jamais pensaram que tivesse existido: uma mulher passional, sonhadora e romântica que foi obrigada a deixar seus sentimentos de lado para manter a famíla e o casamento. Nos diários de Francesca, ela conta como, em 1965, durante uma viagem do marido e dos filhos a uma feira rural ela teve um tórrido e devastador romance com Robert Kincaid (Clint Eastwood), fotógrafo da revista National Geographic.

Dona-de-casa com uma frustrada vocação para o magistério - do qual abdicou na Itália para casar-se com um fazendeiro de Iowa - Francesca é uma mulher conformada, que vive para a família, não exatamente carinhosa e atenciosa como ela merece. Sozinha por quatro dias em um fim-de-semana de verão, ela conhece o fotógrafo Robert, de passagem pela região para registrar as pontes cobertas do condado. Sentindo-se imediatamente atraída por ele - e por sua liberdade - Francesca inicia um flerte delicado e sutil com o desconhecido que lhe ressuscita os sonhos de sua juventude. Apaixonados avassaladoramente um pelo outro, eles são obrigados, porém, a encarar a dura realidade que se aproxima com a volta dos Johnson.



Utilizando com esperteza o velho truque do flash-back, o roteirista Richard LaGravenese - que se aventuraria anos mais tarde na carreira de diretor com o também lacrimoso "PS, eu te amo" - manipula os sentimentos do espectador da maneira mais explícita possível, mas é tão honesto em suas intenções que isso acaba contando a seu favor. Graças a diálogos fluentes e às interpretações de seus protagonistas, fica difícil não acreditar no nascente amor entre os dois, duas pessoas aparentemente diferentes mas que mantém acesa (ainda que discretamente) a chama da vida. Talvez justamente por envolver a plateia no romance entre os dois - de forma gradual e delicada, ao som de uma caprichada trilha sonora de Lennie Niehaus - o filme consegue, em seu terço final, baixar a guarda de todo mundo e conduzir a todos a uma jornada à mais profunda tristeza e frustração.

A cena em que Francesca precisa decidir, em questão de segundos, todo o seu futuro, já é destinada a qualquer antologia dos momentos mais arrasadores do cinema romântico americano. Debaixo de uma chuva inclemente e com o marido a seu lado, ela necessita definir sua felicidade, infelicidade ou frustração antes que o sinal verde do semáforo lhe obrigue a deixar de lado o amor maior de sua vida. Na pele de Meryl Streep, a melhor atriz viva do cinema, Francesca deixa de ser apenas uma personagem para tornar-se a plateia em toda a sua extensão. São as lágrimas de Francesca que escorrem pelo rosto do público, em uma catarse coletiva que justifica-se plenamente pela competência assustadora com que Eastwood contou uma história absolutamente simples e sem firulas.

Programa obrigatório para fãs de cinema, fãs de Meryl Streep e fãs de filmes românticos, "As pontes de Madison" é um clássico instantâneo. E como diz a personagem de Eastwood, essa certeza só se tem uma vez na vida.

6 comentários:

Alan Raspante disse...

Uma das melhores atuações de Streep. A cena da chuva é DEMAIS pra minha pessoa....

Mateus Denardin disse...

Considero uma obra-prima e, sem dúvida, o melhor filme de Eastwood.

Professor Marcos Paulo disse...

Belíssimo. Delicado e verdadeiro. Supera em muito o livro.

Amanda Câmara disse...

Esse filme é lindo! Lembro que quando o assisti, me emocionei muito no final!

Lilian disse...

Um adendo, esse não foi o primeiro filme do Clint como diretor de filme romântico. Interludio de Amor de 1973 foi o seu primeiro filme, também ótimo!

Clenio disse...

Oi, Lilian, tem razão. Erro inaceitável meu. Obrigado pela correção. Abraços.

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