quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

OS SUSPEITOS

OS SUSPEITOS (The usual suspects, 1995, Polygram Filmed Entertainment, 106min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Christopher McQuarrie. Fotografia: Thomas Newton Sigel. Montagem e música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Sara Andrews. Produção executiva: Hans Brockmann, François Duplat, Art Horan, Robert Jones. Produção: Michael McDonnell, Bryan Singer. Elenco: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollack, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Pete Postletwhaite, Suzy Amis, Dan Hedaya, Giancarlo Esposito. Estreia: 16/8/95

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Kevin Spacey), Roteiro Original

"O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe". A máxima do poeta francês Charles Baudelaire nunca foi usada com tanta propriedade e conveniência quanto em "Os suspeitos", filmaço de 1995 que levou os merecidos Oscar de roteiro original e ator coadjuvante (um Kevin Spacey absolutamente impecável) e colocou seu jovem diretor Bryan Singer na lista dos cineastas mais promissores da década - ele ainda faria o sufocante "O aprendiz" antes de aderir de vez ao mainstream com os dois primeiros capítulos da série "X-Men". Inteligente, dono de um clima de suspense irresistível e interpretado por um elenco nunca aquém de fascinante, "Os suspeitos" foi um cartão de visitas e tanto para um diretor que assinava recém seu segundo trabalho.

É impossível negar que o brilhante roteiro de Christopher McQuarrie seja talvez o maior responsável pelo burburinho todo em relação ao filme, que, assim como "Traídos pelo desejo" havia feito dois anos antes, exigia uma espécie de pacto de silêncio em relação a seu final inesperado. Contada de forma criativa, a busca pela identidade do famigerado criminoso húngaro Keyser Soze - o demônio em pessoa segundo uma testemunha ocular de seus feitos violentos - pega a plateia pelo cérebro e não a larga mais. No final de seus 106 minutos de projeção, fica impraticável não admirar a engenhosidade de uma trama que, mais do que surpreender, conquista pela absoluta simplicidade. Sim, todas as pistas estão aos olhos do público, que, intrigado, não resiste a uma segunda espiada. E se surpreende novamente.

Tudo começa quando uma chacina no porto de Los Angeles deixa apenas dois sobreviventes. Um deles está com a maior parte do corpo queimada e não fala inglês. O outro é Verbal Kint (Kevin Spacey), um bandido pé-de-chinelo aleijado e falante como seu apelido evidencia. Interrogado pelo detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri), responsável pela investigação da tragédia, Kint conta como foi parar no cais, iniciando sua história seis semanas antes, quando conheceu quatro homens em uma ação policial. Dean Keaton (Gabriel Byrne), Fred Fenster (Benicio Del Toro), Todd Hockney (Kevin Pollak), Michael McManus (Stephen Baldwin) e ele foram reunidos em uma delegacia, uniram-se para dar um golpe na polícia e depois descobriram que sua união fora planejada por Keyser Soze, um mafioso húngaro a quem todos deviam alguma coisa. Chantageados a cumprirem uma missão para o misterioso chefe, eles acabam vítimas de uma emboscada e cabe a Kujan desenredar o nó da história contada em detalhes por Kint.


É preciso assistir a "Os suspeitos" com olhos muito atentos. Cada cena, cada detalhe, cada linha de diálogo ajuda a montar o quebra-cabeças montado pelo roteiro, que vai e vem cronologicamente - influência de "Pulp fiction"? - e ainda consegue manter seu clima de absoluto suspense até os minutos finais. A segunda metade do filme - quando a audiência toma contato com o passado trágico de Soze - é tão sufocante, tão empolgante e tão elétrica que é não é difícil entender porque ele está em uma invejável 25ª colocação entre os 250 melhores filmes do site IMDB. A edição de John Ottman - também autor da climática trilha sonora - é ágil, complexa e jamais se perde em seus descaminhos e, mais do que tudo, o elenco fantástico escalado por Singer dá conta do recado mais do que lindamente.

Por incrível que pareça, o elenco de "Os suspeitos" consegue ser homogeneamente brilhante. Mesmo unindo nomes que seriam posteriormente consagrados - como Benicio Del Toro - com galãs buscando o respeito artístico - Stephen Baldwin - não há desníveis no casting do filme. O veterano Gabriel Byrne assume o papel do mais perseguido dos criminosos, mas é discreto o bastante para não tentar ofuscar seus colegas de cena - e entre os coadjuvantes estão dois indicados ao Oscar por papéis outros, Pete Postletwhaite e Chazz Palminteri. E talvez justamente por esse alto nível de atuações é que fica ainda mais patente o trabalho excepcional e acima de qualquer crítica de Kevin Spacey no crucial papel de Verbal Kint.

Coroando um ano que iniciaria sua consagração como um dos melhores atores americanos de sua geração - ele ainda estaria no elenco do inesquecível "Seven" - Spacey levou o Oscar de ator coadjuvante por um trabalho irretocável. Compondo uma personagem repleta de nuances físicas e emocionais, Spacey rouba o filme todo para si, mesmo que pareça não fazer muita força para isso - e talvez o segredo esteja exatamente aí. Ele é um ator tão fabuloso que sua simples presença em cena já convence a plateia de qualquer coisa, o que é essencial para sua personagem, que revela, aos poucos, toda a teia de mentiras, pistas falsas e armações espalhadas pelo caminho. É Verbal Kint - e consequentemente Kevin Spacey - que dá sentido e unidade a "Os suspeitos".

Hoje em dia é pouco provável que ainda haja pessoas no mundo que não conheçam a identidade de Kayser Soze. Mas mesmo de posse dessa informação desde os créditos iniciais de "Os suspeitos" é impossível não se deixar enredar pela genial obra de Singer, que fica melhor a cada revisão.

3 comentários:

Rodrigo Mendes disse...

O Kayser Soze me assusta, apesar de não ser um gangster. Rs!

Filmaço. Grande roteiro e momento para Bryan Singer que posteriormente não se confirmou tanto. O Aprendiz é bom, os dois X- Men um lixo, Superman: O Retorno um lixo nuclear e Operação Valquíria, pelo menos agradou.

Mas Os Suspeitos é o auge dele e de Kevin Spacey. E, também de Christopher McQuarrie que não acertou tão bem novamente.

Abs.
Rodrigo

Thomás R. Boeira disse...

Filmaço. Infelizmente só consegui assisti-lo uma vez até agora. Mas não vejo a hora de comprá-lo.

Era o começo de um grande cineasta (gosto de todos os filmes de Singer, menos Superman: O Retorno que acho medíocre). E Kevin Spacey está incrível.

Abraço,
Thomás
http://www.brazilianmovieguy.blogspot.com/

Lileeloo disse...

NÃO TENHO NADA A ACRESCENTAR, APENAS:
UM DOS MEUS FILMES DE CABECEIRA - GENIAL!!