segunda-feira, 28 de março de 2011

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

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