quarta-feira, 2 de março de 2011

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES (Trainspotting, 1996, Channel Four Films, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Irvine Welsh. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Tracey Gallacher. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Ewan McGregor, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Ewen Bremner, Kevin McKidd, Kelly Macdonald. Estreia: 23/02/96

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Em 1995, o cineasta inglês Danny Boyle lançou "Cova rasa", um suspense recheado de humor negro que empolgou a crítica e revelou o talento do jovem ator Ewan McGregor. Ao respeitar as regras básicas do gênero incutindo nele referências pop e uma modernidade estilística, Boyle tornou-se um "nome a ser guardado e observado". Por mais ferrenhos que fossem seus admiradores de então, nem mesmo eles poderiam prever o que viria a seguir. "Trainspotting, sem limites", o segundo longa do diretor causou enorme furor já em sua estreia, no Festival de Cannes de 1996. Acusado de ser uma apologia às drogas, o filme chegou aos cinemas americanos cercado de uma controvérsia que só fez aumentar sua popularidade. Exageradamente apelidado de "o 'Laranja Mecânica' dos anos 90", reacendeu a polêmica sobre o papel do cinema na sociedade e sua má influência à juventude. Exagerada ou não, a discussão sobre sua ideologia quase ofuscou as qualidades da obra de Boyle como cinema propriamente dito. Felizmente, muita gente descobriu que, por trás de sua aparente subversão, "Trainspotting" é um grande filme.

Até mesmo a sisuda Academia de Hollywood foi obrigada a dar o braço a torcer, indicando o roteiro de John Hodge - adaptado de um romance estranho e difícil de Irvine Welsh - ao Oscar. Mesmo que não tenha tido a menor chance de vitória - perdeu para o hoje esquecido "Na corda bamba", de Billy Bob Thornton - só o fato de ter rompido o preconceito contra um cinema quase marginal - pelo tema, em especial - já atesta a sua força. Ao encontrar uma linha narrativa em um livro de estrutura quase anárquica, que dá vozes a diversas personagens sem seguir um enredo sólido, Hodge realizou um trabalho impecável e, por incrível que pareça, fiel ao espírito transgressor da obra que lhe deu origem. E, obviamente, contar com a criatividade avassaladora de Danny Boyle na direção só ajudou.


À primeira vista, "Trainspotting" acompanha a trajetória de um grupo de jovens escoceses viciados em heroína. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma poderosa crítica à sociedade de consumo e à hipocrisia reinante não apenas no país, mas de maneira geral. O protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor) é um rapaz que tem como principal mote de sua existência o niilismo absoluto: usuário de drogas, ele se vê repentinamente se forçando a abandonar o vício ao ser preso pelo roubo em uma loja. Passando por uma tenebrosa crise de abstinência, ele conta com a ajuda (ou não) de seu grupo de amigos: o galã Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle), o também viciado Spud (Ewen Bremner) e o romântico Tommy (Kevin McKidd). O filme mostra como Renton busca fugir da vida de drogado - e consequentemente mergulhar no capitalismo que tanto despreza - através de uma série de anedotas e acontecimentos engraçados/chocantes/trágicos.

O que talvez tenha incomodado tanto os censores de plantão seja a absoluta falta de vontade de Hodge, Welsh e Boyle de utilizar "Trainspotting" como uma lição de moral. Não é verdade que o filme exalte o uso de drogas, ainda que Renton descreva a sensação de estar chapado como "mil vezes melhor que seu melhor orgasmo". Tampouco é panfletário, mesmo que apresente algumas cenas chocantes e trágicas - algumas embaladas em um visual atraente e criativo, mas mesmo assim bastante fortes. Não existe certo e errado na história de Irvine Welsh, apenas situações que, extremas, obrigam suas personagens a tomar decisões quase definitivas. Mas é inegável que, por trás de bebês mortos e mergulhos em sanitários imundos, existe um fator que desequilibra a balança: ao utilizar uma trilha sonora vibrante, atores atraentes e um irresistível humor negro para contar sua história, Boyle de certa forma reveste de um certo glamour o mundo das drogas. Mas aí a velha questão volta a martelar: o cinema tem a obrigação de educar ou é apenas um espelho da sociedade? Ou ainda: depois de todo esse bafafá... "Trainspotting" é ou não um bom filme?

A resposta é clara: um sonoro SIM. "Trainspotting" tem um roteiro diferente do corriqueiro, um elenco brilhante (liderado por um magérrimo e dedicado Ewan McGregor), uma trilha sonora antenada (que não saiu das pistas de dança por bons meses) e uma edição desenfreada mas nunca confusa ou sufocante. Dirigido com firmeza por um Danny Boyle no auge de seu vigor criativo - que lhe daria um Oscar pelo bom mas menor "Quem quer ser um milionário?" - é um retrato de sua época e de uma juventude que não estava disposta a sentar em frente a uma TV se alimentando de comida enlatada. Se isso incomodou tanto, é porque tocou em uma ferida muito sensível da sociedade dos anos 90. Isso é cinema!

PS: Visitem meu outro blog e leiam uma outra visão minha do filme:

http://lennysmind.blogspot.com/2010/03/filmes-que-mudaram-minha-vida.html

4 comentários:

renatocinema disse...

Filmaço. Clássico obrigatório.

A trilha sonora é magistral, espetacular e todos adjetivos possíveis.

Amei o filme e seu texto.

Parabéns.

Silvano Vianna disse...

Clenio procura no Cinema Detalhado, temos uma análise bem legal da trilha desse ícone Cult dos anos 90. Um filme que trouxe a via alguns atores interessantes especialmente o "Obi Wan"!
Abraços!

tata disse...

oi, eu nao sou amante de cinema nao, mas estou prestes a assistir este filme. dai vim na internet ver qual era do filme e achei este blog aqui, eu sou Viegas tambem, que engracado, vinda do aviador Jose Jau Margalho Viegas, sera que temos algum parentesco?

abs,
tata

COCA0 disse...

oi, sera que somos parentes? cai de paraquedas no seu blog, eh pq vou assistir este filme, sou neta do aviador Jose Jau Margalho Viegas.