quinta-feira, 10 de março de 2011

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

4 comentários:

Silvano Vianna disse...

Lembro que na época eu gostei muito desse filme. Gosto muito do Kevin Bacon mesmo ele sendo bem meiero como ator.

Hugo disse...

Ótima lembrança, escrevi sobre este filme há um bom tempo no meu blog.

Na minha opinião é um dos melhores trabalhos de Levinson, valorizado pelo elenco, inclusive os garotos.

Ao que parece o escritor Lorenzo Carcaterra mentiu ao citar que era uma história verdadeira, ele usou isso como uma espécie de propaganda para o filme e o livro.

Abraço

renatocinema disse...

Não é um filme nota 10. Mas, sem dúvida, tem sua importância e relevância sobre assunto tão díficil como a perda da inocência de forma tão brutal.

Anônimo disse...

Um filme ótimo, que muita gente não conhece! O problema do filme, é o ritmo lento da segunda parte, esta que vem depois de uma parte sufocante, com excelentes atuações dos garotos, que deram a alma nas interpretações!
Mas, mesmo com a lentidão e peso da segunda parte, o filme se faz obrigatório para quem gosta do gênero. Nota dez para a primeira parte, sete pra segunda!