segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CRASH, NO LIMITE


CRASH, NO LIMITE (Crash, 2004, LionsGate Films, 112min) Direção: Paul Haggis. Roteiro Paul Haggis, Bobby Moresco. Fotografia: J. Michael Munro. Montagem: Hughes Winborne. Música: Mark Isham. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Marina Grasic, Jan Korbelin, Tom Nunan, Andrew Reimer. Produção: Don Cheadle, Paul Haggis, Mark R. Harris, Bobby Moresco, Cathy Schulman, Bob Yari. Elenco: Sandra Bullock, Brendan Fraser, Don Cheadle, Matt Dillon, Ryan Phillipe, Terrence Howard, Thandie Newton, Michael Peña, Loretta Devine, Jennifer Esposito, William Fichtner. Estreia: 21/4/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Haggis), Ator Coadjuvante (Matt Dillon), Roteiro Original, Montagem, Canção ("In the deep")
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Montagem 

Era uma vez um filme convencional, repleto de clichês, com um elenco pretendendo ser levado a sério e com vontade de parecer profundo que, por causa da hipocrisia dos membros de mentalidade fechada da Academia de Hollywood ganhou o Oscar de Melhor Filme no mesmo ano em que a história de amor e preconceito entre dois cowboys gays levou todos os prêmios confiáveis distribuídos pelo mundo graças a sua qualidade e sensibilidade. Esse filme - o que em tese era corajoso por tratar de racismo e diferenças sociais em uma Los Angeles que servia de microcosmo do país - se chama "Crash, no limite" e, a despeito de algumas qualidades, não passa de um telefilme com grande elenco e roteiro superficial.

Co-escrito e dirigido por Paul Haggis - que despontou para a fama quando escreveu o roteiro do premiadíssimo "Menina de ouro", de Clint Eastwood - "Crash" é mais um filme que se utiliza da velha estrutura de histórias paralelas para disfarçar a falta de profundidade de suas personagens, todas elas construídas de forma mais a servir à narrativa do que qualquer outra coisa. Em comédias românticas o artifício funciona; em um filme que se propõe a discussões sérias é um pecado bastante grave, especialmente quando o assunto é palpitante e polêmico quanto aqui. No final, tudo se resume a uma tese ambiciosa, mas sem maiores fundamentos que a possam sustentar. Felizmente, nem tudo são pedras. Existem flores no meio do caminho e - apesar de não justificarem os elogios rasgados e tampouco o Oscar de melhor filme - elas conseguem ao menos tornar a missão de assistir ao filme de Haggis um passatempo no mínimo fluente.



Seguindo o estilo que Robert Altman consagrou em filmes como "Nashville" e "Short Cuts" - e com o qual não teve a mesma sorte em "Pret-à-porter" - "Crash" narra várias histórias que tem em comum os fatos de se passarem em Los Angeles e serem focadas no racismo (em várias nuances). Aos poucos o público é apresentado aos policiais Tom Hansen (Ryan Phillipe) - que está em vias de perder parte de sua inocência profissional - e John Ryan (Matt Dillon, inexplicavelmente indicado a um Oscar de coadjuvante) - que em menos de 24 horas tem a chance de se redimir diante da esposa (Thandie Newton) de um produtor de TV (Terrence Howard, excelente) com quem teve um comportamento reprovável. Também é apresentado à audiência o casal de ricaços Jean e Rick Cabot (Sandra Bullock e Brendan Fraser) - que depois de um assalto passam a desconfiar de qualquer um que não seja branco, anglo-saxão e protestante -, o trabalhador latino Daniel (Michael Peña) - que encontra dificuldades por ser de uma raça considerada "inferior" pelos moradores de sua cidade - e o detetive Graham Waters (Don Cheadle no melhor papel do filme), que precisa lidar com o irmão marginal e a mãe doente. Ao redor deles, outras personagens compõem um mosaico de preconceito e hipocrisia.

O roteiro de Haggis e Bobby Moresco apresenta suas personagens e tramas de maneira ágil e direta, mas
pecam por ter medo de ir até os limites do drama. Não há nenhum momento catártico em sua história, nenhum choque que tire o espectador de sua zona de conforto - como o faz "A outra história americana", por exemplo. Quando isso está perto de acontecer - em uma cena tensa entre Daniel, sua filha pequena e um cliente insatisfeito - os roteiristas preferem o caminho da espiritualidade e frustram a expectativa do público em testemunhar o que poderia ser um grande momento dramático. E quando tem a coragem de matar uma personagem fazem uma escolha pouco ousada - ainda que isso dê a Don Cheadle a chance de explorar o papel menos superficial de toda a trama.

Não é que "Crash, no limite" seja absurdamente ruim ou algo que o valha. É que levanta questões importantes sem discutí-las a contento e promete muito mais do que cumpre. Condena o que é realmente condenável mas não passa de um mero observador quase covarde. E nem é tão brilhantemente dirigido a ponto de fazer de Sandra Bullock e Ryan Phillipe atores convincentes. Sua falta de contundência é seu maior - e fatal - pecado. E, convenhamos, talvez tenha sido essa militância rasa que tanto encantou aos obtusos (para não dizer tacanhos) e os fez abraçar um filme apenas ok como melhor do que o extremamente superior "O segredo de Brokeback Mountain".

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