sexta-feira, 4 de março de 2016

GAROTA EXEMPLAR

GAROTA EXEMPLAR (Gone girl, 2014, 20th Century Fox, 149min) Direção: David Fincher. Roteiro: Gillian Flynn, romance de sua autoria. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Leslie Dixon, Bruna Papandrea. Produção: Ceán Chaffin, Joshua Donen, Arnon Milchan, Reese Witherspoon. Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens, Patrick Fugit, Sela Ward. Estreia: 26/9/14 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Rosamund Pike)


Poucos cineastas norte-americanos em atividade parecem ter tanto gosto pelos desvãos da mente humana quanto David Fincher. Desde que mergulhou Brad Pitt e Morgan Freeman na busca por um serial killer que matava de acordo com os sete pecados capitais no já antológico “Seven, os sete crimes capitais”, em 1995, o homem que começou sua carreira cinematográfica brigando com a indústria por discordar dos rumos de seu primeiro filme – a saber, o terceiro capítulo da série “Alien”, lançado em 1992 – consagrou-se como um brilhante artesão da violência (nunca totalmente explícita, sempre estilizada e frequentemente dotada de uma paradoxal beleza). Foi assim que ele narrou a caça a um dos mais infames criminosos da história dos EUA no subestimado “Zodíaco” (2007) e deu personalidade própria ao remake do sueco “Os homens que não amavam as mulheres” (que deu à atriz Rooney Mara uma indicação ao Oscar 2012) – filmes adultos e sérios que tinham, em seu DNA, a coragem de contar, sem subterfúgios, histórias que, em mãos menos talentosas, poderiam descambar para o sadismo e/ou a pasteurização mais banal do gênero. Nada mais apropriado, portanto, que o nome de Fincher estampe os créditos de “Garota exemplar”, bem-sucedida (artística e comercialmente) adaptação de um dos romances policiais mais populares dos últimos anos. Imprimindo seu bom-gosto e sua obsessão perfeccionista em cada minuto de projeção, o diretor conseguiu o que parece cada dia mais difícil no cinemão americano: unir popularidade à qualidade artística. “Garota exemplar” é um triunfo em ambos os quesitos.
           
O romance de Gillian Flynn – também autora do roteiro conciso e inteligente – vendeu mais de seis milhões de exemplares pelo mundo, e era questão de tempo até que seus direitos fossem adquiridos para uma adaptação para o cinema. Foi a atriz Reese Witherspoon quem primeiro viu as possibilidades da trama e, creditada como produtora, quase assumiu também o papel principal. Mudou de ideia quanto ao trabalho diante das câmeras, foi fazer “Livre”, com Jean-Marc Valée (filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar) e deixou o caminho livre para que Fincher optasse pela inglesa Rosamund Pike – uma ilustre quase desconhecida que agarrou com unhas e dentes sua maior oportunidade até então. Foi um gol de placa. Não apenas Pike angariou calorosos elogios da crítica como acabou disputando a estatueta dourada justamente com Witherspoon – única indicação do filme, o que de imediato o coloca como um dos injustiçados da cerimônia de 2015. Não importa que o Oscar de melhor atriz tenha ficado com Julianne Moore em “Para sempre Alice” – um belo desempenho de uma atriz extraordinária: a atuação de Pike como Amy Dunne, a protagonista feminina de “Garota exemplar” teve o impacto de uma epifania, um sopro de novidade dentro de uma indústria como Hollywood, pródiga em criar estrelas pouco brilhantes. Descrever o porquê de tantos aplausos ao trabalho de Pike sem estragar as boas surpresas da trama do filme é tarefa inglória, mas pode-se dizer, sem medo de atrapalhar a delícia que é desvendar a história criada por Flynn, que a jovem atriz constrói não apenas uma Amy Dunne, e sim várias, de acordo com os ângulos variados que vão sendo mostrados pela câmera sempre esperta e surpreendente de Fincher e seu diretor de fotografia preferido, Jeff Cronenweth.



O filme em si começa na manhã do dia 05 de julho de 2010, em uma pequena cidade do Missouri, onde mora o jovem e atraente casal Nick e Amy Dunne – vividos por Ben Affleck e Rosamund Pike. O que era para ser um dia mais ou menos comum em suas vidas (o mais ou menos refere-se ao fato de ser o dia de seu aniversário de casamento) aos poucos torna-se o pesadelo de Nick: procurado no bar que mantém ao lado da irmã gêmea Margo (Connie Cun), ele chega em sua confortável e espaçosa casa para descobrir que Amy desapareceu misteriosamente – e os móveis revirados na sala não são um bom motivo para otimismo. O desaparecimento de Amy logo torna-se notícia na cidade, no estado e aos poucos no país, já que a jovem – linda, loura, gentil e saudável – é uma espécie de ídolo nacional através de uma série de livros infantis escritos por sua mãe e inspirados em sua vida. Como sempre acontece nesses casos, Nick torna-se o suspeito número 1 da polícia – representada principalmente pelos detetives Rhonda Boney (Kim Dickens) e Jim Gilpin (Patrick Fugit) – e tenta desesperadamente ajudar nas buscas e nas investigações, que incluem seu pai doente mental, vagabundos drogados que resultaram da decadência financeira da cidade e até mesmo antigos admiradores de Amy, que, segundo consta, sempre atraiu homens perigosos para sua volta.
            
O grande lance de inteligência de “Garota exemplar” – o livro e o filme em iguais medidas – é deixar que o espectador se envolva com a trama policial seguindo o raciocínio lógico do gênero, com suas regras e paradigmas, para depois, exatamente em sua metade, virar a mesa e expor um outro lado da questão, revelando então tudo aquilo que estava escondido na manga. As viradas no rumo da história se sucedem com parcimônia e naturalidade, levando o público a questionar-se continuamente: Nick é inocente ou culpado? Amy está realmente morta? Se não foi Nick quem cometeu o crime, quem foi? Houve, afinal, um crime? E a mais importante das questões, levantada mais explicitamente no romance e mais sutilmente em sua versão para as telas: qual o papel da verdade em um casamento? O quanto precisamos fingir para que possamos manter um relacionamento?
            
Essa questão crucial exposta por Gillian Flynn percorre todo o filme de David Fincher, que se recusa a tratar Nick Dunne como um homem errado hitchcockiano – afinal, ele também tem esqueletos no armário, mesmo que talvez seja inocente do crime pelo qual está sendo acusado – ou como um marido frio e calculista capaz de tramar a morte da mulher que aparentemente ama – e cuja morte lhe traria benefícios financeiros e a liberdade que ele vem ansiando. Sutilmente, o diretor vai mostrando todas as faces de seu protagonista, revelando aos poucos as camadas que revestem seu matrimônio. Para isso, ele conta com um recurso desprezado por roteiristas em geral mas que aqui funciona à perfeição: o diário de Amy, onde ela conta (através de narração em off e flashbacks) toda a sua história de amor com o marido, desde o encantamento inicial até a crise iniciada com problemas de dinheiro e a mudança de Nova York para a pequena cidade onde tem início a trama policial. Com uma edição absurdamente precisa (a cargo do mesmo Kirk Baxter que levou o Oscar por “A rede social” e “Os homens que não amavam as mulheres”, ambos de Fincher), as memórias de Amy, as investigações da polícia e as tentativas de Nick em provar sua inocência mesmo quando tudo aponta para sua culpa se entrelaçam em uma narrativa coesa, forte e visualmente dinâmica, em que se destaca a fotografia requintada e a trilha sonora discreta, quase minimalista, que surge apenas nos momentos em que se torna imprescindível.
            
Conseguindo manter a plateia sem fôlego até o minuto final da projeção – até mesmo daqueles que conhecem a história através das páginas do livro – David Fincher mostra, mais uma vez, que é um mestre na arte narrativa audiovisual. Não apenas arrancou de Ben Affleck uma atuação competente – o rosto quase impassível do ator acaba servindo muito bem ao propósito de manter a dúvida a respeito da real personalidade de seu personagem – como foi feliz em subverter algumas das regras básicas do gênero policial, ousando fazer do espectador o cúmplice silencioso e surpreso de uma das mais criativas mentes criminosas da literatura (e do cinema) dos últimos anos. Mesmo com algumas pequenas ressalvas – Neil Patrick Harris não convence muito como um antigo amor de Amy, que tem importância fundamental no desfecho da história, por exemplo – “Garota exemplar” é um filme extraordinário (mais um) na carreira brilhante de seu diretor. Sem ele tudo poderia ter sido bem menos feliz – como outra adaptação de livro de Gillian Flynn, o fraquíssimo “Lugares escuros”, mostra sem espaço para discussões.

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