quarta-feira, 2 de março de 2016

SAMBA

SAMBA (Samba, 2014, Quad Productions/Ten Films/Gaumont, 118min) Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano. Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano, colaboração de Delphine Coulin, Muriel Coulin, romance de Delphine Coulin. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Dorian Rigal-Ansous. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Isabelle Pannetier. Direção de arte: Nicolas de Boiscuillé. Produção: Nicolas Duval-Adassovksy, Laurent Zeitoun, Yann Zenou. Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izia Higelin, Isaka Sawadogo. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto) 

Em 2011, a dupla de cineastas Olivier Nakache e Eric Toledano emplacou um dos maiores sucessos da história do cinema francês, a comédia dramática "Intocáveis", que levou multidões às salas de exibição com sua mistura certeira entre o lírico e o popular. Além de contar com a presença do ótimo François Cluzet em um dos papéis centrais, o filme também revelou ao grande público o carisma de seu colega de cena, o ator Omar Sy - que chamou a atenção com sua energia e seu talento até então relegado a produções menores e sem o mesmo efeito comercial. Como não se mexe em time que está ganhando, o trabalho seguinte de Nakache e Toledano repetiu a parceria com Sy em mais um filme que equilibra humor e lágrimas - acrescentando à receita uma crítica social e um retrato o mais realista possível (dentro de uma ficção que se pretende rentável) de uma das chagas mais doloridas do atual momento político da Europa: a imigração ilegal. Baseado em um romance de Delphine Coulin, "Samba" estreou no Festival de Toronto de 2014 e, se não repetiu o impressionante êxito de "Intocáveis", ao mesmo conseguiu manter o frescor que caracteriza a obra dos diretores. Com um elenco que ainda inclui os talentosíssimos Charlotte Gainsbourg (musa de Lars Von Trier) e Tahar Rahim (o ótimo protagonista de "O profeta"), "Samba" cativa facilmente a plateia - ainda que não a encante tanto como se poderia esperar.

O personagem principal do filme é o senegalês Samba Cissé (Omar Sy), que mora ilegalmente na França há dez anos e é preso pela Imigração, ameaçado de ser deportado - especialmente por não ter no país uma família além de um tio idoso. Quem vai ajudar-lhe a solicitar um visto permanente é a inexperiente Alice (Charlotte Gainsbourg), que acaba de passar por uma séria crise nervosa no trabalho e resolveu dedicar-se ao serviço social enquanto se recupera do trauma. Alertada pela colega Manu (Izia Higelin) a não envolver-se demais nos problemas das pessoas a quem atende, Alice não consegue deixar de ficar impressionada com a simpatia e o otimismo de Samba - e, correspondida, começa com ele uma relação hesitante e nunca devidamente declarada. Enquanto isso, o rapaz usa de toda a sua experiência em ser invisível diante das autoridades para manter-se no país - assim como seu companheiro de desventuras, o brasileiro Wilson (Tahar Rahim).


Sem pesar a mão nos estereótipos raciais ou no humor politicamente incorreto, o roteiro de "Samba" passeia tranquilo pelo drama que acompanha a trajetória dos imigrantes - preferindo ater-se àqueles íntegros e trabalhadores, para não desviar o foco do protagonista - e pelo humor que faz parte da rotina de Samba e Wilson (e para que os brasileiros não reclamem da forma óbvia com que são retratados, existe uma surpresa mais além na história que explica certos comportamentos do personagem). Interpretado por outro ator de grande carisma, Tahar Rahim, Wilson é responsável pelos momentos mais leves do filme, que felizmente evita pesar a mão nas tragédias mesmo quando parece que este é o único caminho viável para o desfecho. Além disso, a história de amor que se desenha entre Samba e Alice escapa com criatividade do clichê, trilhando um caminho bem mais interessante do que se poderia supor a princípio - especialmente porque existe também uma outra mulher, que será capaz de alterar todos os planos anteriormente feitos pela dupla.

Com uma trilha sonora que inclui várias canções brasileiras - Jorge Benjor em especial - e uma trama que consegue o feito raro de tratar de um assunto pesado sem tornar-se excessivamente dramática ou pessimista, "Samba" mostra que a dupla Eric Toledano e Olivier Nakache ainda tem muito a oferecer ao cinema francês e mundial. Já Omar Sy não precisa se preocupar em conquistar a plateia: já estreou em Hollywood e fez parte do elenco dos blockbusters "Jurassic World: mundo dos dinossauros" e "X-Men: dias de um futuro esquecido", que o colocaram de vez no inconsciente coletivo dos fãs do cinemão mainstream. Nada mais justo.

Nenhum comentário: