sábado, 5 de março de 2016

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, Cloud Eight Films, 128min) Direção: Ava DuVernay. Roteiro: Paul Webb. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Spencer Averick. Jason Moran. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Nik Bower, Ava DuVernay, Paul Garnes, Cameron McCracken, Diarmuid McKeown, Nan Morales, Brad Pitt. Produção: Christian Colson, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Oprah Winfrey. Elenco: David Oyelowo, Tim Roth, Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, Common, Dylan Baker, Cuba Gooding Jr., Alessandro Nivola. Estreia: 11/11/14

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Canção Original ("Glory")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Glory") 
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Glory")

Em 2015, um ano marcado por omissões escandalosas, indicações discutíveis e surpresas um tanto desagradáveis na lista de indicados ao Oscar - pensando bem, em qual ano isso não acontece? - talvez a questão mais debatida dentre os fãs de cinema e os ditos "especialistas de plantão" disse respeito à esnobada quase geral dada ao filme "Selma: uma luta pela igualdade", que muitos julgavam merecedor de figurar entre os destaques da cerimônia. Mesmo indicada na categoria principal, a produção dirigida por Ava DuVernay não conseguiu conquistar os votos dos eleitores da Academia em outros páreos importantes, como direção (Ava seria a primeira mulher afro-americana a concorrer ao Oscar) e ator (David Oyelowo), o que acarretou uma interminável discussão sobre a falta de miscigenação racial na festa mais importante do cinema - uma polêmica que estendeu-se até o ano seguinte, quando a situação repetiu-se com ainda mais força. Enquanto alguns creditavam a omissão à Paramount por não ter enviado cópias do filme aos eleitores a tempo da votação, outros não hesitavam em dizer que tudo não passava de racismo puro e simples por parte da Academia e de Hollywood em si. O que ninguém cogitou pensar é na possibilidade de o filme - apesar de suas inúmeras qualidades e importância histórica e social - não ser tão forte quanto os acontecimentos que retrata.

É lógico que "Selma" é infinitamente superior a aberrações demagógicas como "Sniper americano" e ao filme-fórmula "A teoria de tudo" - ambos sintomaticamente indicados na principal categoria mas também deixados de fora na briga por diretor - mas é muito provável que os fãs mais radicais do filme não percebam que, por trás de todas as emocionantes e chocantes cenas que mostram os confrontos raciais que sacudiram os EUA nos anos 60, por trás da performance discreta e convincente de David Oyelowo como Martin Luther King e por trás da força emocional da história contada, não existe um roteiro consistente a ponto de esconder o ritmo claudicante, os tempos mortos e, pior ainda, a edição pouco criativa. A cada sequência empolgante, que leva o espectador para dentro da história, como se fosse participante ativo do movimento social que está transformando um país - e por consequência, o mundo todo - existem várias outras sonolentas, que o afastam emocionalmente. Toda vez que Martin Luther King vai ao encontro do Presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) ou este debate a situação com o governador do Alabama, George Wallace (Tim Roth), o filme perde o pique. São momentos importantes para a ação, claro, mas que contrastam radicalmente com outros de grande intensidade dramática e que comprometem o ritmo do filme como um todo.


Quando DuVernay mostra ao espectador a violência a que os negros - e até mesmo os brancos que compravam sua briga - eram submetidos simplesmente porque lutavam pelo direito básico ao voto, seu filme cresce, se agiganta, emociona às lágrimas. Quando se dedica a mostrar a forma idealista de Luther King lutar contra o preconceito, sua obra se ilumina e inspira. Quando dá espaço a seus atores - em especial Oyelowo, Tim Roth e sua produtora Oprah Winfrey em pequena participação - brilharem, seu trabalho conquista. Mas ao final da sessão, quando a sensação de injustiça e revolta passam, não sobra muito mais. Falta a "Selma" aquele algo mais que faz de um bom filme um filme inesquecível. É forte, é intenso e é imprescindível historicamente. Mas não faz jus a toda a polêmica que criou em torno de suas duas únicas indicações ao Oscar - e nem o fato de Brad Pitt estar entre os produtores executivos ajudou muito na campanha a seu favor (Pitt era também produtor executivo de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar principal do ano anterior, o que de certa forma anula a acusação de racismo generalizado por parte da Academia).

E seria injusto falar a respeito de "Selma" - cidade americana que foi sede de uma passeata de grande importância na luta pelos direitos civis dos negros - sem citar aquela que é, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades (além da atuação de David Oyelowo, que interpretou, também com consistência e garra, o filho de Forest Whitaker no igualmente engajado "O mordomo da Casa Branca"). Vencedora do Oscar e do Golden Globe de Melhor Canção Original, a bela "Glory" levantou a plateia na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia com uma performance energética e poderosa de Common e John Legend - e lembrou da força da emoção que em muitos momentos falta ao filme de DuVernay. Com um roteiro um pouco mais profundo e menos ambicioso em abraçar o mundo com as pernas, seria um filme genial. Como está, é um filme inspirador, mas muito aquém de extraordinário.

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