terça-feira, 1 de março de 2016

PARA SEMPRE ALICE

PARA SEMPRE ALICE (Still Alice, 2014, Killer Films/BSM Studio, 101min) Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland. Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, romance de Lisa Genova. Fotografia: Denis Lenoir. Montagem: Nicolas Chaudeurge. Música: Ilan Eshkeri. Figurino: Stacey Battat. Direção de arte/cenários: Tommaso Ortino/Susan Perlman. Produção executiva: Emilie Georges, Celine Rattray, Marie Savare, Maria Shriver, Trudie Styler, Christine Vachon. Produção: James Brown, Pamela Koffler, Lex Lutzus. Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto) 

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Julianne Moore)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Julianne Moore)
 

Por mais que tente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – aquela que distribui anualmente o Oscar – não consegue disfarçar sua predileção quase fetichista por personagens vitimados por alguma doença e/ou impelidos a lutar contra alguma injustiça social. Por isso, quando saíram as indicações à estatueta para a cerimônia de 2015, não houve nenhuma surpresa com a lembrança – e o favoritismo – de Julianne Moore por seu desempenho em “Para sempre Alice”. Não que Moore não merecesse a indicação (e a posterior vitória), mas havia quem defendesse que seu desempenho em “Mapas para as estrelas”, de David Cronenberg – que lhe deu a Palma de Ouro no Festival de Cannes – era ainda mais corajosa, por fugir dos clichês de dramas médicos e criticar a própria indústria do cinema. No fim das contas, porém, os conservadores e previsíveis acadêmicos acabaram por acolher o igualmente brilhante – mas menos surpreendente – trabalho de Moore no filme da dupla de diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Baseado em um livro de Lisa Genova, “Para sempre Alice” não acrescenta muito a um subgênero bastante popular do cinema americano - e também muito criticado pelos intelectuais – mas é salvo pela dignidade de seu roteiro sóbrio e pela atuação de um elenco admirável, que, além de Julianne, conta ainda com Alec Baldwin e uma Kirsten Stewart completamente diferente de sua apática Bella Swan da série “Crepúsculo”.
Excepcional como sempre, Julianne Moore – uma grande atriz que consegue equilibrar com raro sucesso produções independentes e blockbusters de qualidade duvidosa – é a base na qual se constrói toda a narrativa de “Para sempre Alice”, linear e de emoções discretas, que se avolumam gradativamente até o final que, para surpresa geral, abdica das lágrimas fáceis para optar pela delicadeza. A protagonista é Alice Howland, uma linguista festejada e admirada como uma das mais competentes profissionais de sua área. De uma hora para outra, ela começa a esquecer nomes, trocar palavras e perder-se em ambientes muito conhecidos. Procurando um médico, Alice se vê diante de uma terrível realidade: uma espécie rara de Alzheimer, hereditária e precoce. Aos 50 anos, alguém que sempre teve absoluto controle sobre sua cognição passa a depender, então, de lembretes espalhados pela casa e no celular e conviver com olhares paternalistas e compassivos da família. Apoiada pelo marido, John (Alec Baldwin), ela acaba por reaproximar-se da filha caçula, Lydia (Kirsten Stewart), que batalha por uma carreira como atriz.




Um dos diretores de “Para sempre Alice”, Richard Glatzer, morreu antes que Moore conhecesse o gostinho de ter um Oscar nas mãos: vítima de uma doença degenerativa que o impedia de falar e lhe fez comandar as filmagens através de mensagens de texto (e da colaboração com seu co-diretor Westmoreland), Glatzer deve ter se identificado com o drama de sua protagonista, mas nem por isso carregou a mão na tragédia, salpicando-a aqui e ali com doses de poesia e delicadeza. Contando com a ajuda de trechos da peça teatral “Angels in America”, de Tony Kushner – que fala sobre os primeiros anos da AIDS na comunidade internacional e já foi adaptado para a televisão, via HBO, com um elenco all-star que incluía Meryl Streep e Al Pacino – o roteiro da dupla de diretores evita o dramalhão fácil, preferindo oferecer à plateia uma narrativa mais seca, recheada de elipses contundentes e que mostram os efeitos gradativos da doença sem buscar a piedade do espectador: valente e racional até mesmo quando tenta solucionar seus problemas (em uma sequência angustiante), Alice não se transforma, em momento algum, na doente coitadinha que tanto agrada os produtores hollywoodianos. Mesmo que algumas cenas comovam o público – por razões óbvias e impossíveis de driblar em produções com tal temática – o filme jamais manipula seus sentimentos, preferindo focar sua atenção na relação de carinho e respeito que Alice encontra em sua família, que no meio do furacão, é aumentada com a chegada de um casal de gêmeos, nascidos de sua filha mais velha, Anna (Kate Bosworth) – também dotada do gene que pode, futuramente, desenvolver a mesma doença da mãe.
“Para sempre Alice” não é uma obra-prima revolucionária ou capaz de mudar os rumos de seu gênero. Mas é uma obra que respeita seu tema e seu público, conduzindo com elegância e inteligência uma história que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Mérito da direção, sim, mas principalmente da interpretação arrasadora de Julianne Moore, que conquista a simpatia da plateia desde as primeiras cenas e, aos poucos, vai mergulhando junto com ela em direção a mares bravios e pouco agradáveis. É seu imenso talento que torna suportável essa viagem triste e deprimente que consegue, paradoxalmente, terminar com uma ponta de otimismo e poesia que apenas reitera sua vocação para sobressair-se entre seus congêneres.

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