domingo, 6 de março de 2016

INVENCÍVEL

INVENCÍVEL (Unbroken, 2014, Legendary Pictures, 137min) Direção: Angelina Jolie. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson, livro de Laura Hillebrand. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: William Goldenberg, Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Lisa Thompson. Produção executiva: Mick Garris, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Matthew Baer, Angelina Jolie, Erwin Stoff, Clayton Townsend. Elenco: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Miyavi, Finn Witrock, Jai Courtney. Estreia: 17/11/14 (Sydney)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som


Quando se sabe dos detalhes da vida do norte-americano Louis Zamperini – contada na biografia escrita por Laura Hildebrand – uma das primeiras histórias que veem à mente é a do sofredor Jó, que, testado pelo inclemente Deus do Velho Testamento, pagou seus pecados com juros altíssimos, sentindo na pele a ira (ou o sadismo) do Criador. Porém, “Invencível” – segunda incursão da atriz Angelina Jolie como cineasta e a versão para as telas do livro de Hildebrand – não tem a intenção de fazer um paralelo religioso entre as agruras do jovem atleta feito prisioneiro de um campo de trabalhos forçados no Japão da II Guerra Mundial e qualquer personagem bíblico. Ainda que algumas imagens do filme remetam à ícones cristãos – Zamperini erguendo um pesado corte de madeira sob a supervisão cruel de um comandante inimigo, por exemplo – e sua mensagem final glorifique o perdão como um dos mais nobres sentimentos, “Invencível” é apenas, em uma visão mais direta e óbvia, um grande drama de guerra, com todos os elementos necessários para conquistar os fãs do gênero.
Emolduradas pela impecável fotografia do veterano Roger Deakins (indicado ao Oscar pelo trabalho) e embaladas pela trilha sonora discreta e eficiente de Alexandre Desplat, as desventuras de Zamperini servem de matéria-prima para um filme que é um passo à frente na carreira da bela Jolie como diretora. Depois do pouco visto “Na terra do amor e do ódio”, falado em bósnio e relativamente bem-sucedido junto à crítica - já que até uma indicação ao Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira arrebatou – Jolie demonstra uma segurança ímpar ao contar uma história tão recheada de lances dramáticos que até parece mentira. Sem ousadias narrativas ou lapsos de brilhantismo, a atriz vencedora do Oscar de coadjuvante por “Garota, interrompida” (99) constrói um filme de estrutura clássica e linear, explorando mais a via-crúcis de seu protagonista do que artifícios técnicos e/ou sentimentalistas. Apesar de sua tendência em enfatizar talvez em excesso a força do espírito humano diante das adversidades – que parece ser o tema subjacente de toda a trama – Jolie consegue se manter à margem do piegas na maior parte do tempo, contando para isso com a ajuda de um roteiro enxuto e direto escrito pelos experientes irmãos Coen (Joel e Ethan) e William Goldenberg.
Muito criticado por não acrescentar nada de novo a um gênero já apinhado de clássicos considerados além do bem e do mal, “Invencível” decepcionou àqueles que viam nele um forte candidato ao Oscar 2015 – a Academia, que adora histórias de superação pessoal e filmes passados durante os duros anos da II Guerra, praticamente ignorou a produção, indicando-a apenas a alguns prêmios técnicos não convertidos em estatuetas. A recepção bem menos calorosa do que o esperado não faz jus à beleza do filme, no entanto. Cercada por uma equipe de profissionais de primeira linha, Angelina Jolie conta sua história com delicadeza feminina, suavizando até mesmo momentos de extrema violência com enquadramentos que buscam a beleza como forma de atenuar a dor e a crueldade. Longe da crueza de filmes que retratam o mesmo período, “Invencível” se destaca por ver a torpeza aflorada em homens no seu limite envernizada por uma beleza plástica irretocável e quase poética. Mesmo sem poupar a plateia de cenas decididamente fortes, a sra. Brad Pitt o faz com elegância e uma sinceridade de que só cineastas ainda não tornados cínicos pela indústria de Hollywood conseguem manter.



E talvez essa visão ainda romântica e generosa de Jolie é que tenha lhe aproximado da história de Louis Zamperini, um homem que, apesar de todas as provações pelas quais passou, ainda manteve a fé em Deus e na bondade humana. Criança problema tornada um promissor jovem atleta – chegou a correr nas Olimpíadas de 1940 – Zamperini foi convocado para defender os EUA na II Guerra. Seu primeiro revés foi ver seu avião abatido pelas forças inimigas e passar mais de 45 dias em mar aberto, ao lado de dois companheiros, passando fome e sede, lutando contra o medo de tubarões e sofrendo de constantes insolações. O segundo talvez tenha sido ainda pior: resgatado por uma embarcação japonesa, viu-se, ao lado de outros soldados, prisioneiro em um campo de trabalhos forçados: vítima constante de espancamentos e humilhações por parte do comandante Watanabe (o astro pop japonês Miyavi, cuja androginia torna seus confrontos com o protagonista ainda mais interessantes), Zamperini agarra-se à sua crença religiosa para manter-se de pé e vivo até o fim do conflito. Corajoso e íntegro, ele chega a recusar, por lealdade a seu país, a oportunidade de deixar o campo e aliar-se aos inimigos.
Interpretado pelo ótimo Jack O’Connell – ator irlandês desconhecido do grande público mas dono de um talento que lhe aponta um futuro alvissareiro – Louis Zamperini é um personagem de proporções épicas, um herói moderno que luta pela vida e pela dignidade sem precisar usar de superpoderes além da fé e da resiliência quase inacreditável. O’Connell transmite a sensação exata de dor e força do personagem com a segurança de um veterano, carregando nas costas toda a responsabilidade de convencer o público de sua garra inabalável. Sua transformação de promessa do esporte à prisioneiro de guerra é crível e impressionante – ajudada pela maquiagem discreta e eficaz – e é inegável que boa parte da credibilidade da história passa por suas mãos. Mais um crédito para Jolie, que escolheu acertadamente seu ator central e soube dirigí-lo com a firmeza necessária para impedir exageros grotescos ou minimalismos enfadonhos. Diante de O’Connell fica difícil ao espectador não se deixar envolver e torcer por um final feliz.
Mesmo não sendo um filme perfeito – o ritmo em determinados momentos cai um pouco e os flashbacks iniciais soam deslocados da narrativa, uma vez que não voltam a acontecer no decorrer da história – “Invencível” é uma obra digna de figurar entre os melhores dramas de guerra já realizados em Hollywood. Tecnicamente impecável (até mesmo nas cenas de ação aérea a atriz demonstra habilidade e competência) e dramaticamente eficiente, conquista pela força da trama, pela inteligência na escolha de seus profissionais e principalmente pela mensagem de tolerância e paz em um mundo tão necessitado de tais sentimentos. Não se poderia esperar menos de uma atriz tão militante em relação à paz mundial. “Invencível” é um belo drama de guerra que termina deixando o espectador pensando somente na paz. Um belo exemplo.

Um comentário:

Liliane de Paula disse...

Acho que gravei esse filme.
Só falta assistir.