quinta-feira

ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR


ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR (All that jazz, 1979, 20th Century Fox/Columbia Pictures, 123min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Alan Heim. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gary J. Brink, David Stewart. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Robert Alan Aurthur. Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Cliff Gorman, Ben Vereen. Estreia: 16/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Roy Scheider), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes

Joe Gideon é workaholic, fumante compulsivo, mulherengo inveterado, ávido consumidor de álcool e usuário habitual de substâncias químicas que o ajudam a manter um ritmo insano de vida. Joe Gideon é diretor de musicais, coreógrafo, dançarino e cineasta. Joe Gideon trabalha escalando o elenco de seu novo espetáculo na Broadway, trabalha na edição de um novo longa-metragem e trabalha formas de equilibrar as mulheres da sua vida - a ex-esposa, a atual namorada e a filha adolescente. Joe Gideon é um artista mas precisa lidar com a burocracia e a insensibilidade de seus investidores - mais apaixonados por dinheiro do que por integridade artística. E além de tudo, Joe Gideon é um ser humano - propenso, portanto, a ver seu organismo cobrar por tanta pressão. Então, durante o processo de ser Joe Gideon por 24 horas por dia, ele sofre um severo ataque cardíaco - e enquanto vê sua posição como diretor ser ameaça por interesses financeiros, apela para sua fértil imaginação e cria, em seus momentos inconscientes, um novo show, onde realidade e fantasia se misturam com pessoas reais, alucinações médicos, procedimentos cirúrgicos e seus constantes excessos profissionais e amorosos: como todo artista obcecado com sua arte, ele faz de sua doença a inspiração para mais um grande evento. Joe Gideon é o protagonista do filme "All that jazz: o show deve continuar". E, como não há o menor espaço para dúvida, Joe Gideon É Bob Fosse, seu criador.

Um dos maiores nomes do teatro musical norte-americano, Fosse tornou-se também um cineasta respeitado quando, pela versão cinematográfica de "Cabaret" (1972), arrebatou o Oscar de melhor diretor, batendo Francis Ford Coppola (de "O poderoso chefão"). A partir daí, levou seu estilo moderno, feérico e elegante para as telas, da mesma forma como fazia nos palcos. Em 1974 causou polêmica com "Lenny", cinebiografia do comediante de stand-up Lenny Bruce - e voltou a concorrer à estatueta da Academia. E, como prova de criatividade (e autoironia), aproveitou-se de um problema de saúde real (um enfarte), para realizar mais uma obra-prima - que lhe valeu a Palma de Ouro de melhor diretor no Festival de Cannes. "All that jazz: o show deve continuar" é a versão musicada e anfetamínica de um período conturbado da existência de Fosse - mas, como visto na tela, é uma celebração da arte, da dança e da vida, repleta de um colorido e de uma energia que deixou muita gente atônita (e outros tantos espectadores extasiados). Indicado a nove Oscar (incluindo melhor filme e direção), "All that jazz" foi considerado corajoso por parte da crítica - mas tampouco deixou de incomodar àqueles que o julgaram macabro e de péssimo gosto. Seja como for, o filme fez um relativo sucesso de bilheteria (rendeu três vezes mais o seu custo), levou 4 Oscar (figurino, direção de arte, trilha sonora adaptada e edição) e ficou marcado como mais um triunfo do talento inesgotável de seu criador.

Segundo Shirley MacLaine, foi ela quem sugeriu a Fosse que transformasse seu ataque cardíaco em um musical sobre a morte. Se é verdade ou não, a questão é que o cineasta/coreógrafo acatou a ideia e chegou a oferecer um dos principais papéis femininos à amiga - com quem trabalhou em "Charity, meu amor" (1969), sua estreia como cineasta. No entanto, quem ficou com o papel de Audrey Paris - ex-mulher de Gideon e sua parceira artística constante, assim como o era Gwen Verdon com o próprio Fosse - foi Leland Palmer, em seu último trabalho no cinema. A escolha de Palmer no lugar de MacLaine, no entanto, foi a menos difícil e traumática do elenco. Complicado mesmo foi chegar a um consenso quanto ao intérprete do protagonista, um dos alter-egos mais brilhantes da história do cinema. Fosse chegou a pensar em si mesmo para o papel - mais foi demovido da ideia pelo produtor Daniel Melnick, que não acreditava que ele sobrevivesse às filmagens se acumulasse as funções de diretor e ator. A partir daí, nomes os mais variados surgiam e eram descartados - por um motivo ou outro. Warren Beatty se interessou pelo projeto - e era aprovadíssimo pela Columbia Pictures, confiante em seu potencial de grande astro -, mas foi deixado de lado depois de exigir que o final fosse alterado. Richard Dreyfuss chegou a ser escalado, mas abandonou o barco na fase de ensaios por não acreditar no projeto - uma decisão da qual se confessa arrependido. Paul Newman nem chegou a ler o roteiro por não sentir-se confortável em interpretar um dançarino. Jack Lemmon foi considerado, mas Fosse chegou à conclusão de que era velho demais para o papel. Gente como Jack Nicholson, Gene Hackman, Elliot Gould, George Segal e Alan Alda foram cogitados - e Jon Voight chegou até a fazer um teste, mas é difícil, hoje em dia, à luz do resultado final, imaginar outro ator que não Roy Scheider na pele do sedutor Joe Gideon.

Scheider foi escolhido por Fosse em pessoa - que bancou sua decisão corajosamente. Apesar de participações em filmes de sucesso, como "Operação França" (1971) e "Tubarão" (1975), Scheider não era exatamente a opção mais óbvia para viver um coreógrafo don juan - especialmente em um musical que lhe exigiria sequências de canto e dança. Scheider, no entanto, honrou a ousadia do cineasta com uma performance arrebatadora que lhe garantiu lugar entre os indicados ao Oscar de melhor ator do ano (que perdeu para Dustin Hoffman, por "Kramer vs Kramer"): arrogante e autoconfiante, o Joe Gideon construído por Scheider escapa da antipatia justamente pelo carisma do ator, que escapa magistralmente das constantes armadilhas do roteiro, co-escrito por Fosse e pelo produtor Robert Alan Aurthur - que morreu em novembro de 1978, durante a produção do filme, e foi indicado postumamente ao Oscar. Liderando um elenco impecável e sem grandes astros (reparem em John Lithgow no começo de carreira, em papel pequeno), Scheider sublinha todos os acertos do filme e apaga os problemas pré-lançamento: o estouro do orçamento (que pulou de 6,5 milhões para 10 milhões e só foi aprovado depois de uma sessão especial aos presidente da Fox), o extenso cronograma de pós-produção (oito meses contra os 101 dias de filmagens) e as dúvidas a respeito de como o resultado final seria recebido pela crítica e pelo público.

Essa última preocupação provou-se exagerada. Mesmo com algumas (poucas) reclamações por parte da imprensa, "All that jazz" já estreou vencedor. Sucesso comercial e premiado profusamente, o filme de Fosse chegou a receber um elogio inesperado e definitivo de ninguém menos que Stanley Kubrick, que classificou-o como "o melhor filme que já vi." Nada mal para uma ousada criação que mistura dança, morte, sexo, obsessões e generosas doses de autobiografia. Uma obra-prima que confirma o gênio de Bob Fosse!

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