sábado, 5 de novembro de 2016

NEW YORK, NEW YORK

NEW YORK, NEW YORK (New York, New York, 1977, United Artists, 155min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Earl Mac Rauch, Mardik Martin, estória de Earl Mac Rauch. Fotografia: Lászlo Kovács. Montagem: B. Lovitt, David Ramirez, Tom Rolf. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Robert DeVestel, Ruby R. Levitt. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place. Estreia: 21/6/77

No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?

Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.


Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.

Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.

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