domingo, 15 de novembro de 2015

O QUARTETO

O QUARTETO (Quartet, 2012, Headline Pictures/BBC Films, 98min) Direção: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sarah Wittle. Produção executiva: Christoph Daniel, Jamie Laurenson, Xavier Marchand, Marc Schmidheiny, Thorsten Schumacher, Dickon Stainer, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Michael Gambon, Billy Connolly, Gwyneth Jones, Sheridan Smith. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos maiores atores de sua geração, Dustin Hoffman tem seu nome nos créditos de alguns dos filmes fundamentais da história do cinema, como "A primeira noite de um homem", "Sob o domínio do medo", "Todos os homens do presidente", "Tootsie" e dezenas de outros - isso sem contar nas duas produções que lhe deram o Oscar, "Kramer X Kramer" e "Rain Man". Com isso em vista, é difícil acreditar que somente em 2012 ele tenha finalmente utilizado toda a experiência adquirida em décadas de carreira para fazer sua estreia na direção. Porém, quando se assiste a seu primeiro filme, "O quarteto", é impossível não pensar que essa demora foi providencial. Dotado de uma maturidade profissional que o impede de cometer excessos ou cair na armadilha do egocentrismo, Hoffman entrega à plateia uma deliciosa ode à arte, à experiência e à amizade, embalada por uma trilha sonora à base de clássicos absolutos e estrelada por um elenco de veteranos visivelmente à vontade em seus papéis.


O roteiro de Ronald Harwood - premiado com o Oscar por "O pianista" - é baseado em uma peça teatral de sua própria autoria e, nas sensíveis mãos de Hoffman, vira uma declarada homenagem a todos os artistas que, mesmo longe dos palcos, ainda tem a música e o dom no coração e na alma. Assim são os moradores da Beecham House, uma casa de repouso para artistas aposentados que, como sempre acontece com lugares assim, sofre com a constante falta de patrocínio para manter-se. Para arrecadar um dinheiro que pode aliviar as finanças por um bom tempo, os moradores costumam realizar um concerto anual - no dia do aniversário de Giuseppe Verdi - e assim conquistar a simpatia e a atenção do público em geral. A paz e a tranquilidade comuns à rotina da casa são perturbados, no entanto, com a chegada de Jean Horton (Maggie Smith, fantástica mais uma vez), uma festejada cantora lírica afastada dos holofotes há décadas para manter a aura de diva. Sua entrada em cena entusiasma seus antigos colegas, que resolvem convidá-la para juntar-se a eles em uma apresentação de "Rigoletto". A recusa de Jean em tomar parte da programação, porém, não diz respeito somente a seu medo de fracassar em público, e sim a seu reencontro com Reggie (Tom Courtenay), com quem foi brevemente casada no passado e por quem ainda nutre fortes sentimentos.


Contando sua história de forma serena - com a ajuda da trilha sonora da melhor qualidade - Dustin Hoffman faz uso exemplar dos diálogos ora sardônicos ora sensíveis do roteiro de Harwood, deixando que cada ator os transforme em pequenas pérolas. Pauline Collins quase rouba a cena como a doce Cissy Robson - uma artista delicada e à beira da demência - e Billy Connolly tira proveito da personalidade dionisíaca de seu Wilf Bond para deitar e rolar com tiradas engraçadíssimas a respeito do ato de envelhecer e perder toda a libido da juventude. Tom Courtenay é o mais contido do quarteto, principalmente porque seu Reggie serve como o contraponto sensato do grupo, e suas cenas com Maggie Smith (indicada ao Golden Globe por seu desempenho) banham de humanidade e sensibilidade uma trama que tem nesses elementos sua principal qualidade. Sem apelar para piadas vulgares ou dramas forçados, o filme de Hoffman conquista principalmente pelo otimismo.

Assim como "O exótico Hotel Marigold" jogava luz sobre personagens cujo perfil etário é o oposto do que reina em Hollywood, "O quarteto" tem orgulho do histórico de seus atores e personagens. Hoffman faz questão de homenagear, nos créditos finais, todos os artistas aposentados que fazem parte do elenco de apoio de seu filme, como uma forma de enfatizar ainda mais sua admiração por sua obra. Falando de velhice, nostalgia e arte sem recorrer à melancolia, Dustin Hoffman faz de sua estreia na cadeira de diretor uma ensolarada e carinhosa cortesia à experiência e ao talento. "O quarteto" é uma delícia de se assistir e revela que o "pequeno grande homem" parece ser tão bom atrás das telas quanto diante delas. Bravo!

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