domingo, 14 de maio de 2017

A MULHER DE PRETO

A MULHER DE PRETO (The woman in black, 2012, Hammer Films/Cross Creek Pictures, 95min) Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman, romance de Susan Hill. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Montagem: Jon Harris. Música: Marco Beltrami. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Niamh Coulter. Produção executiva: Tobin Armbrust, Neil Dunn, Guy East, Roy Lee, Xavier Marchand, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver. Elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Shaun Dooley, Mary Stockley. Estreia: 03/02/12

Vultos assustadores. Ruídos inesperados. Mansões abandonadas. Brinquedos que funcionam sozinhos. Trágicas e inexplicáveis mortes de crianças. E uma atmosfera arrepiante. Com esses elementos tão caros aos clássicos filmes de terror, "A mulher de preto" chegou aos cinemas como uma bela homenagem às antigas produções inglesas da produtora Hammer (não por acaso uma das responsáveis por seu lançamento). Primeiro filme do ator Daniel Radcliffe depois do fim de seu compromisso com a série "Harry Potter", a adaptação do romance de Susan Hill - que já havia dado origem a um telefilme de 1989 - tem todos os ingredientes necessários para uma experiência inesquecível, mas acaba esbarrando justamente na sua falta de ousadia em fugir do óbvio e dos clichês. É uma produção que segue à risca todas as regras há muito estabelecidas - e consagradas junto aos fãs do gênero -, mas que carece de um sabor a mais, que o faça ultrapassar a média. Mesmo assim, não deixa de ser um entretenimento de extrema qualidade técnica e, o que é mais importante, que se leva a sério.

Nadando contra a corrente do cinema de terror contemporâneo, que não resiste a apelar para a autoironia ou a piadas sem graça, "A mulher de preto" convida a plateia em visitar um universo que fez a glória de estúdios como a própria Hammer e a Universal. Com um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ambientação - para o que colaboram muito a fotografia acinzentada de Tim Maurice-Jones e a trilha sonora caprichada de Marco Beltrami -, o segundo longa do diretor James Watkins tem a elegância de um horror vitoriano somado com a sofisticação de um orçamento relativamente generoso de 17 milhões de dólares (muito bem recompensado com uma renda mundial de mais de 125 milhões, em grande parte graças à presença de Radcliffe no elenco). Milimetricamente calculado para impressionar o espectador com seu visual e fisgá-lo com sustos nas horas certas - além de jamais descuidar da trama e mantê-la coerente dentro de seu contexto - o filme dificilmente irá decepcionar aos admiradores de histórias de fantasmas, por respeitar suas regras e tratá-las com inteligência e sobriedade.


Um talvez jovem demais Daniel Radcliffe vive o personagem principal, o advogado Arthur Kipps, traumatizado pela morte precoce da esposa no parto de seu único filho. Escalado por seu patrão para realizar um trabalho fora de Londres, ele vai, a contragosto, até o pequeno vilarejo de Cryphon Grifford para cuidar da papelada referente ao inventário de uma cliente recém falecida. Logo que chega no lugar, o rapaz percebe que há algo de estranho, uma vez que todos os moradores parecem desgostar profundamente da mansão da morta, chamada Eel Marsh. Nem mesmo os receptivos anfitriões de Arthur, Sam e Elizabeth Daily (Ciarán Hinds e Janet McTeer), demonstram entusiasmo por sua visita - perturbados pela morte trágica do único filho, ainda criança, eles sabem mais do que aparentam a respeito de perturbadoras visões que o advogado passa a ter dentro da vasta e escura propriedade onde começa a trabalhar. Quebrando com frequência o silêncio e a aparente calma do local, uma mulher de preto misteriosa e fantasmagórica leva Kipps a investigar mais a fundo a história da cidade, o que o leva a descobrir uma lenda aterrorizante que envolve a morte de uma série de crianças - que não parece dar sinal de querer parar.

 Tentando deixar para trás a imagem do doce bruxinho Harry Potter, que tanto foi uma bênção quanto um problema para sua carreira, tamanho o impacto nela, Daniel Radcliffe mostra-se um ator esforçado, mesmo que seu personagem talvez exigisse alguém com mais idade e mais peso dramático. Para sua sorte, ele é amparado pelos trabalhos delicados dos veteranos Ciarán Hinds e Janet McTeer - ela, em especial, apesar de poucas cenas, dá um show a cada aparição, na pele de uma mulher traumatizada pela perda trágica do filho. O clímax do filme - em que Kipps tenta resolver de vez a questão da personagem-título - carece de um pouco de força, mas o desfecho da trama (que deve contrariar alguns espectadores e empolgar outros) não deixa de ser corajoso, ainda que deixe aberta uma porta para a desnecessária continuação, lançada em 2014 sem seu astro principal como chamariz de bilheteria. No fim das contas, "A mulher de preto" é um filme de terror à moda antiga, bem realizado, honesto e elegante - mas que não se torna inesquecível exatamente por não buscar novidades dentro de um gênero já há muito necessitado de sangue novo. Um bom passatempo e a prova de que Daniel Radcliffe ainda pode oferecer muito.

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