segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

PAIXÃO

PAIXÃO (Passion, 2012, SBS Productions/Integral Film/France 2 Cinéma, 102min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, roteiro original de Natalie Carter, Alain Corneau. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: François Gedigier. Música: Pino Donaggio. Figurino: Karen Muller-Serreau. Direção de arte/cenários: Cornelia Ott/Ute Bergk. Produção: Said Ben Said. Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Dominic Raacke, Rainer Block, Benjamin Sadler. Estreia: 07/9/12 (Festival de Veneza)

A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.

Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.


Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.

É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.

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