quinta-feira, 15 de junho de 2017

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me before you, 2016, MGM/New Line Cinema, 106min) Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Jojo Moyes, romance de Jojo Moyes. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: John Wilson. Música: Craig Armstrong. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sara Wan. Produção executiva: Sue Baden-Powell, Trent Walton. Produção: Alison Owen, Karen Rosenfelt. Elenco: Emilia Clarke, Sam Claffin, Janet McTeer, Charles Dance, Vanessa Kirby, Samantha Spiro, Brendan Coyle, Jenna Coleman, Stephen Peacocke. Estreia: 23/5/16

Até a estreia de "Game of thrones", em 2011, a britânica Emilia Clarke era uma ilustre desconhecida do grande público. Porém, bastou uma única temporada da série, baseada em livros de George R.R. Martin, para que a intérprete de Daenerys Targaryen se tornasse um rosto mundialmente popular, assim como o restante do vasto elenco. Para confirmar seu status de estrela, no entanto, lhe faltava ainda um sucesso na tela grande, que a apresentasse também ao público imune à febre causada pela vitoriosa produção da HBO. Tal situação foi resolvida da melhor maneira possível: unindo o rosto de Clarke à adaptação de um romance best-seller, "Como eu era antes de você" provou-se um êxito senão previsível, ao menos pouco surpreendente: arrecadou mais de 200 milhões de dólares mundo afora e emocionou os espectadores mais sensíveis, seduzidos por uma história de amor à moda antiga, bem-humorada e delicada. É difícil saber se tamanha aprovação se deve mais à fidelidade dos leitores do livro de Jojo Moyes ou dos fãs de "Game of thrones" - o fato é que o filme de estreia da cineasta Thea Sharrock cumpre exatamente o que promete e, se não é inesquecível, ao menos diverte e envolve seu público-alvo com uma narrativa dinâmica e sensível.

Anos-luz distante de sua personagem em "Game of thrones", Emilia Clarke demonstra carisma o bastante para encarar o desafio de interpretar uma jovem comum, sem efeitos visuais ou cenários mirabolantes para dividir com ela as atenções. Ela vive Louisa Clark, uma bem-humorada e otimista garota inglesa que, depois de perder o emprego como atendente de uma charmosa padaria que acaba de fechar as portas, vê-se diante do desafio de encontrar um novo trabalho, que a ajude a complementar a renda da família. Depois de alguma procura, ela parece encontrar uma posição satisfatória: ser cuidadora de um rapaz tetraplégico, filho de uma das famílias mais ricas da região. Will Traynor (Sam Claffin), atropelado por uma moto e sem movimento abaixo do pescoço desde então, vive em um anexo à mansão de seus pais, perdeu totalmente o interesse na vida e, a princípio, não se deixa conquistar pela alegria contagiante de Louisa. Com o passar do tempo, porém, as coisas começam a mudar: seduzido pelo entusiasmo de sua nova cuidadora, Will aceita acompanhá-la em programas que até então considerava perdidos, como viagens, concertos e até a festa de casamento de sua ex-namorada. O que ele não sabe é que Louisa descobriu que ele tem planos de cometer suicídio assistido - e, apaixonada, quer fazê-lo desistir dessa ideia e mantê-lo a seu lado.


Apesar do tema doloroso, "Como eu era antes de você" tem a seu favor uma leveza inesperada - cortesia de Jojo Moyes, autora do romance original e do roteiro que adapta seu livro com o máximo de fidelidade à trama e a seu espírito romântico. O otimismo incorrigível de Louisa - encarnada com ritmo correto por Emilia Clarke - é o contraponto perfeito para a melancolia de Traynor, e sua combinação de espíritos é a sustentação de uma história que não apresenta grandes novidades mas sabe manipular com destreza os clichês que a formam. Primeiro longa-metragem da diretora Thea Sharrock - com experiência em episódios de séries de TV e demonstrando um apropriado timing tanto para o humor quanto para o romance, "Como eu era antes de você" é uma feliz união de um roteiro simples e de fácil comunicação com seu público, uma dupla central carismática e talentosa e o apelo sempre irresistível de um melodrama bem construído. Some-se a isso um visual moderno e atraente, uma trilha sonora convidativa (com duas canções de Ed Sheeran em momentos-chave) e o sucesso é inevitável.

Assim como em "A culpa é das estrelas" - baseado em romance de John Green e também muito bem-sucedido em sua versão cinematográfica - e nas adaptações dos livros de Nicholas Sparks, é certo que boa parte do êxito comercial de "Como eu era antes de você" se deve aos leitores que, encantados com a trama criada por Jojo Moyes, correram aos cinemas para ver nas telas a personificação de seus personagens (interessantes e bem desenvolvidos na medida do possível dentro de um filme de gênero e sem maiores pretensões). Porém, não é preciso ter tido contato com a obra original para se deixar conquistar: fluido e leve, engraçado e comovente, o filme de Sharrock é uma boa surpresa para aqueles que procuram um entretenimento livre de efeitos visuais de última geração e sexo gratuito. Sensível e discreto, "Como eu era antes de você" é uma adaptação digna e honesta, valorizada por seus atores - Charles Dance e Janet McTeer completam o elenco, como os pais de Traynor - e calorosa em suas intenções. Só há contraindicações àqueles que definitivamente não gostam de histórias de amor: para os demais é só preparar a caixa de lenços.

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