terça-feira, 31 de março de 2015

UM PLANO SIMPLES

UM PLANO SIMPLES (A simple plan, 1998, Paramount Pictures/Mutual Film Company, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Scott B. Smith, romance homônimo de Scott B. Smith. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: Eric L. Beason, Arthur Coburn. Música: Danny Efman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Mark Gordon, Gary Levinsohn. Produção: James Jacks, Adam Schroeder. Elenco: Bill Paxton, Bridget Fonda, Billy Bob Thornton, Gary Cole, Brent Briscoe. Estreia: 12/9/98 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Billy Bob Thornton), Roteiro Adaptado

Depois de tornar-se um dos diretores mais cultuados do gênero terror com sua trilogia "Evil dead" e poucos anos antes de conquistar as plateias do mundo todo com os três filmes do Homem-aranha, o cineasta Sam Raimi mostrou que também fica à vontade brincando com outros gêneros cinematográficos ao assinar a direção de "Um plano simples", um drama de suspense inteligente e surpreendente que se utiliza de uma situação quase clichê - um grupo de pessoas vendo sua ética e honestidade postas à prova diante de uma fortuna inesperada e não exatamente limpa - para prender a atenção do público da primeira à última cena graças a uma condução de atores discreta e eficaz e a um roteiro costurado com precisão - e não injustamente indicado ao Oscar da categoria. Baseado em um romance de Scott B. Smith cujos direitos foram comprados por Mike Nichols em 1994, o filme passou pelas mãos de diversos cineastas - como John Boorman e John Dahl - antes de finalmente chegar até Raimi, que imprimiu a ele um tom pessimista e sério que destoava de sua obra até então e pegou até mesmo os fãs de surpresa com sua violência crua e a ausência total de sua marca registrada: o senso de humor negro.

Elegendo como protagonistas dois irmãos não exatamente brilhantes intelectualmente e a esposa grávida de um deles, o roteiro de "Um plano simples" logo de cara mostra que seus personagens não são heróis, vilões ou tampouco capazes de qualquer tipo de superação moral ou ética. Hank Mitchell (Bill Paxton possivelmente no melhor desempenho de sua carreira) trabalha como balconista de um armazém em uma pequena cidade do interior dos EUA. Casado com Sarah (Bridget Fonda em papel oferecido à Laura Dern) e à espera do primeiro filho, ele leva uma vida monótona e sem maiores expectativas até o dia em que, junto com o irmão, Jacob (Billy Bob Thornton, indicado ao Oscar de coadjuvante) e o melhor amigo, Lou (Gary Cole), encontra um avião caído em uma reserva florestal coberta de neve - e dentro dele, além do piloto morto, a pequena fortuna de 4,4 milhões de dólares. Acreditando tratar-se do dinheiro sujo de um resgate, o trio decide ficar com a grana, mas combinam escondê-la até que seja seguro utilizá-la sem despertar suspeitas. Logicamente, porém, as coisas não saem como o esperado: tanto Lou quanto Jacob tem pressa em ficar com sua parte, o que acaba por precipitar uma série de incidentes violentos que compromete a segurança e a liberdade de todos os envolvidos no caso.


A maior qualidade do texto de Smith - adaptado pelo próprio autor para as telas - é a forma com que ele vai explorando paulatinamente o crescimento do mal e da ganância dentro de pessoas até então tidas como pacíficas e honestas. Sarah, por exemplo, como uma Lady Macbeth caipira, vai minando a cabeça de Hank, sendo a autora da maior parte das ideias que acabam por tornar suas vidas um pesadelo sangrento e cruel. Mesmo grávida - e portanto, aparentando uma fragilidade que não existe - ela é quem acaba por se tornar a mais fria e cerebral do grupo, a ponto de ignorar os elos familiares que a unem a Jacob, um homem com problemas mentais que tem por objetivo puro e simples reconstruir a fazenda dos pais e recuperar os dias de paz de seu passado. Os empecilhos irônicos postos diante dos protagonistas pelo roteiro e pela direção esperta e dotada de ritmo próprio de Sam Raimi empurram "Um plano simples" em direção a um final previsivelmente trágico, mas ainda assim consegue fugir do óbvio ao evitar inteligentemente tanto o moralismo quanto o cinismo. Seu desfecho, coerente e verossímil - artigos raros no cinemão americano - pode não agradar a todos, mas é, inegavelmente, bem construído e crível.

E se Billy Bob Thorton foi o único ator do elenco a ser lembrado pela Academia - algo um tanto questionável, uma vez que muitas vezes seu desempenho chega perto da caricatura, como já havia acontecido com seu outro trabalho indicado ao Oscar, "Na corda bamba" - vale destacar a qualidade da atuação de Bill Paxton e Bridget Fonda, que seguram seus papéis com garra e dão a eles uma diversidade de sentimentos que enriquece muito o argumento original. Na pele de Hank e Sarah eles mostram o quanto o ser humano está propenso a alterar seus princípios quanto posto diante de um dilema moral tão fascinante e tentador. Sua humanidade é um ponto alto do filme de Sam Raimi - e o que dá a ele uma transcendência inesperada a uma obra de um gênero normalmente relegado a entretenimento barato.

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