quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O ABUTRE

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, Bold Films/Sierra-Affinity, 117min) Direção e roteiro: Dan Gilroy. Fotografia: Robert Elswitt. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/Meg Everist. Produção executiva: Betsy Danbury, Gary Michael Walters. Produção: Jennifer Fox, Tony Gilroy, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 1976, o cineasta Sidney Lumet lançou um dos mais contundentes ataques ao sensacionalismo da mídia, o já clássico "Rede de intrigas", que deu o Oscar de melhor atriz à Faye Dunaway e de melhor ator (póstumo) a Peter Finch. Quase quatro décadas depois, as coisas não mudaram muito (se é que não pioraram ainda mais) no universo do jornalismo, e o roteirista Dan Gilroy - de "O legado Bourne" - fez sua estreia na direção com mais um ataque feroz contra os urubus do quarto poder. Escorado em uma atuação impressionante de Jake Gyllenhaal, o suspense "O abutre" é um soco na boca do estômago da plateia, colocando-a como testemunha e cúmplice de seu protagonista, um dos mais psicóticos personagens surgidos nas telas de Hollywood em muito tempo.

Assustadoramente magro e visualmente chocante, Gyllenhaal - injustamente esquecido pela Academia que preferiu Bradley Cooper e a soporífera patriotada de "Sniper americano" - interpreta Louis Bloom, um jovem que descobre, meio por acaso, uma forma de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia: vender imagens de acidentes de carro, tiroteios, assassinatos e outros tipos de violência às emissoras de televisão que as veiculam diariamente, como parte de uma dieta sombria e grotesca. Comprando uma câmera amadora e contratando a preço de banana um assistente que não tem onde cair morto - o ingênuo Rick (Riz Ahmed) - Bloom passa a disputar a primazia das desgraças com um veterano das ruas, o também ambicioso Joe Loder (Bill Paxton), e torna-se, com o tempo, fornecedor quase oficial de uma pequena emissora da cidade, cuja diretora de telejornalismo, Nina (Rene Russo), tem uma elástica noção de ética. Quando percebe que pode ganhar ainda mais dinheiro manipulando as cenas dos crimes para torná-las mais atraentes para o telespectador, o rapaz não hesita em ultrapassar todos os limites, chegando até mesmo a esconder informações da polícia para aumentar seu poder de negociação junto à imprensa.


Como uma espécie de Travis Bickle - personagem de Robert De Niro em "Touro indomável" - Louis Bloom é um lobo solitário e perigoso, um misantropo doentio fruto de seu próprio tempo: enquanto Bickle era um veterano da guerra do Vietnã, Bloom é vítima de uma sociedade desesperada pelo êxito e pela vitória, conforme ele deixa claro em seus discursos constantes copiados de manuais de sucesso profissional. Levando uma vida patética e tediosa, ele encontra em sua nova "carreira" não apenas um jeito de ganhar dinheiro, mas de ser notado, respeitado e amado - nem que seja através de chantagem. Seus métodos pouco ortodoxos - pra não dizer tão criminosos quanto os atos que registra com sua câmera - o levam em direção a um precipício do qual ele parece não ter medo, e que fica cada vez mais atrelado à sua necessidade patológica de fama e atenção. Suas armas não são visíveis e é aí que o roteiro de Gilroy (indicado ao Oscar) mostra sua força: aparentemente um simples peão, Louis Bloom é a representação clara e inequívoca de uma imprensa crescentemente cruel e desumana, um monstro incapaz de esconder sua própria face e disposto a sacrificar o que for preciso para atingir seus objetivos egocêntricos. Em um período onde a mídia mais uma vez dita a ordem das coisas em nível mundial, "O abutre" é um filme obrigatório.

E se por seu teor político-social o filme de Dan Gilroy - irmão de Tony, o diretor de "Conduta de risco" - é nada menos que essencial, como cinema também não é nada desprezível. Filmado basicamente à noite (o que enfatiza seu tom sombrio e sublinha o suspense crescente da trama), o trágico e violento conto do cineasta leva o espectador a uma excursão angustiante pelo lado pouco glamouroso de Los Angeles e dos bastidores da televisão - mostrados sob uma luz realista e pouco lisonjeira e valorizados pela bela atuação de Rene Russo (esposa do diretor e em um de seus melhores trabalhos) e pela revelação do jovem Riz Ahmed, que pontuam com perfeição o show de Jake Gyllenhaal, em uma interpretação antológica e fascinante que transforma cada cena em um espetáculo à parte. "O abutre", com seu senso de realidade e inteligência, é um dos melhores filmes da temporada 2014, infelizmente não devidamente reconhecido como tal pelas cerimônias de premiação.

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