segunda-feira, 8 de agosto de 2011

GAROTOS INCRÍVEIS

GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")

O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.


Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.



"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.

O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.

"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!

2 comentários:

Hugo disse...

O roteiro mistura bem drama e comédia, sem exagerados.

O ponto principal é o elenco e como vc bem escreveu, com uma grande atuação de Michael Douglas.

Abraço

Cristiano Contreiras disse...

Eu lembro que quando vi esse filme em 2000, tinha apenas 14 anos, e detestei mesmo. Preciso rever, acredito que gostarei, afinal a maturidade serve pra isso. Mesmo achando que Michael Douglas interpreta ele mesmo, em tudo, eu quero ver. E seu ótimo texto reforça isso! Vou baixar, abraço