segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

4 comentários:

! Marcelo Cândido ! disse...

Assisti ano passado, realmente não é melhor que o primeiro, mas marca!

Tiago Britto disse...

Seu último parágrafo foi perfeito. Não chega perto do primeiro, mas supera o segundo em tudo.

Lileeloo disse...

Novamente concordamos, mas eu sou muito de atores, sou fã de todos eles presentes no filme - era quase impossivel para mim não gostar de Dragão Vermelho.

Joe! disse...

Sempre considerei o enredo de Dragão Vermelho mais rico em conteúdo que O Silêncio dos Inocentes, infelizmente, esse filme foi encarado pela perspectiva lucrativa que Hannibal podia oferecer na época, uma pena, já que o livro Dragão Vermelho, de Harris, é o melhor da série que traz Hannibal Lecter.