domingo, 1 de fevereiro de 2015

UM SONHO SEM LIMITES

UM SONHO SEM LIMITES (To die for, 1995, Columbia Pictures Corporation, 106min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Buck Henry, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Carol Lavoie. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Jonathan Taplin. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck, Illeana Douglas, Dan Hedaya, Kurtwood Smith, Wayne Knight, Alison Folland. Estreia: 20/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman)

No livro "To die for", de Joyce Maynard, a protagonista - que sonha desesperadamente tornar-se famosa - declara que, se um filme fosse feito a respeito de sua vida, ela gostaria de ser interpretada pela atriz Nicole Kidman (à época do lançamento ainda conhecida mais como a esposa de Tom Cruise do que por seus dotes dramáticos). Coincidência ou destino, anos depois, quando o cineasta Gus Van Sant viu Meg Ryan pular fora da adaptação do romance de Maynard foi Kidman quem o procurou, ávida pela chance de estrelar o filme, por cujo roteiro ela havia se apaixonado perdidamente. Seu assédio a Van Sant funcionou e o Hollywood viu surgir uma estrela de primeira grandeza. Mesmo ignorada pelo Oscar, Nicole abocanhou o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical, recebeu elogios unânimes da crítica e, pela primeira vez desde que aportou no cinema americano mostrou que era bem mais do que um rosto lindo e um corpo desejável: ela era uma intérprete de verdade.

Vindo do fiasco crítico e comercial de "Até as vaqueiras ficam tristes" (93), um western lésbico estrelado por Uma Thurman, o diretor Gus Van Sant não poderia ter escolhido melhor o material para sua volta ao trabalho. Ácido e momentoso, o romance de Maynard brincava com o culto à celebridade, o desejo irracional por fama a qualquer custo e o desmoronamento da instituição do casamento com um humor delicioso, tom mantido no roteiro enxuto de Buck Henry, que consegue jogar com o suspense, o erotismo, o documentário e a comédia sem nunca embaralhar os gêneros. É crédito também de Henry - e um poucão da atuação de Kidman - conseguir fazer com que o público sinta-se conectado à protagonista apesar de todos os seus pecados e crimes. Poucas vezes o cinema americano mostrou uma personagem central feminina tão amoral, ambiciosa e fria como Suzanne Maretto. E poucas vezes o público ficou tão encantado com uma personagem desse naipe.


Morando na pequena cidade de New Hampshire, Suzanne Stone (uma Kidman loira e perigosa em sua sensualidade latente) tem como maior objetivo da vida ser famosa e sabe o que fazer para realizar seu intento. Em seu caminho para ser a âncora do telejornal local, porém, ela esbarra justamente na única pessoa que deveria estar a seu lado: o marido, Larry (Matt Dillon). Boa-praça e querido por todos, ele é o herdeiro de um pequeno restaurante na cidade, tem uma relação de extremo afeto com a família e é apaixonado pela esposa até o limite da quase cegueira. Com ambições bem menores do que as dela, ele deseja fazer uma reforma em seu negócio, ter filhos e viver uma tranquila e pacata vida de casado. Apavorada com tal possibilidade, Suzanne aproveita que está fazendo um documentário sobre a adolescência para a TV local para seduzir um de seus entrevistados, o rebelde Jimmy Emmett (Joaquin Phoenix), e convencê-lo a tirar Larry da jogada.

Uma femme fatale das mais atrevidas e cínicas, Suzanne Maretto chora cinicamente quando precisa mostrar-se arrasada, usa e abusa do poder de sedução para enlouquecer jovens no auge da testosterona, mente sobre o que for preciso e recorre até ao homicídio para conquistar seus objetivos. Sua absoluta falta de pudor acaba fazendo com que a personagem escape da esfera do trágico para atingir o cômico, o que é um acerto e tanto do roteiro e da direção. Ao dar leveza à trágica história que conta, Van Sant permite ao público um respiro de alívio que, mesmo sendo de viés, o afasta da tensão e do peso. Para isso, ele conta com a interpretação irretocável de Nicole Kidman, que deita e rola em um dos melhores papéis de sua carreira: além de extremamente sexy, ela transmite todas a complexidade da personagem sem nunca cair na caricatura ou no exagero. A seu lado, cabe a Matt Dillon e Joaquin Phoenix pontuar com correção um show de perfeito timing cômico e dramático.

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