quinta-feira, 27 de agosto de 2015

INQUIETOS

INQUIETOS (Restless, 2011, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 91min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Jason Lew. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Anne Ross/Sara Parks. Produção executiva: Eric Black, Sarah Bowen, David Allen Cress, Tricia Huggins, Michael Sugar. Produção: Brian Grazer, Bryce Dallas Howard, Ron Howard, Gus Van Sant. Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Riô Kase, Jane Adams, Schuyler Fisk, Lusia Strus. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)

 Ele se chama Enoch Brae e, órfão de pai e mãe por obra de um desastre de automóvel que o deixou em coma por três meses, tem por hábito frequentar funerais de desconhecidos como forma inconsciente de exorcizar sua constante melancolia. Ela é Annabel Cotton, uma jovem inteligente, sensível e etérea que, apesar da pouca idade já tem os dias contados devido a um tumor cerebral incurável. Um belo dia eles se encontram em um velório e tornam-se amigos. Ela não questiona o fato do rapaz conversar com o fantasma de um piloto kamikaze morto em ação e ele aceita pacificamente a ideia de que a vida de sua melhor amiga tem data para acabar. Aos poucos a relação entre os dois ultrapassa os limites da amizade e eles se apaixonam, mesmo sabendo que sua história de amor está fadada à tristeza.

A breve sinopse do filme do outrora transgressor Gus Van Sant - que depois de empolgar a crítica com seus ousados "Drugstore cowboy" e "Garotos de programa" foi engolido pela máquina hollywoodiana a ponto de concorrer duas vezes ao Oscar de melhor diretor, uma delas pelo burocrático "Gênio indomável" - pode fazer com que os avessos a a histórias movidas a lágrimas e sentimentos torça o nariz sem pensar duas vezes. Porém, por incrível que pareça, recomenda-se que até mesmo esses detratores do gênero reconsiderem tal reação. Apesar da premissa um tanto deprê, "Inquietos" é um sensível e delicado drama romântico que não apela para o chororô melodramático. Contado de forma suave, poética e com doses de um bem-vindo e inusitado senso de humor, o filme de Van Sant é, talvez, uma das mais singelas histórias de amor de seu tempo, dotada de uma pureza juvenil cada vez mais rara nesse cínico século XXI.


Embalado pela doce trilha sonora de Danny Elfman, "Inquietos" não é apenas a trágica história de dois jovens que lidam com a morte de maneira estoica (cada um a seu jeito): é principalmente uma ode à vida, uma homenagem aos pequenos momentos, a cada sorriso, a cada toque, a cada pingo de chuva. Apesar de estarem em um momento crucial e devastador de suas vidas, Enoch e Annabel não encontram tempo para lamentos e lágrimas. Jovens e quase pueris em sua paixão, eles preferem utilizar o tempo que lhes resta juntos da maneira mais positiva possível (e nem mesmo planejar seu funeral tira o bom humor da garota, vivida com uma encantadora sutileza por Mia Wasikowska em sua melhor atuação). O romance entre os dois não soa artificial nem urgente, surgindo passo a passo, de maneira gradual e verdadeira e conquista a audiência principalmente por sua inocência, representada de maneira apaixonante por sua dupla central.

Se Mia Wasikowska, apesar da pouca idade, já tinha um currículo respeitável à época do lançamento de "Inquietos" - já havia sido vista em "Alice no País das Maravilhas" e "Minhas Mães e Meu Pai", só para citar os mais conhecidos - o novato Henry Hopper (filho do saudoso Dennis) fez uma auspiciosa estreia na pele do inseguro, tímido e desconfortável Enoch. Dono de traços delicados, o jovem Hopper transmite com facilidade as nuances de sua personagem, ainda que esteja longe de ser um ator admirável (o que ele pode se tornar com o tempo, como demonstra aqui). A química entre os dois é formidável e é difícil não se deixar emocionar com algumas de suas cenas, principalmente devido à naturalidade de suas atuações e a seu final arrebatador (que felizmente abdica das lágrimas fáceis).

"Inquietos" pode até não ser criativo e ousado como os primeiros filmes de Gus Van Sant, mas é um alívio perceber que seus tempos de "Encontrando Forrester" parecem ter ficado definitivamente para trás.

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