sábado, 20 de dezembro de 2014

GAROTOS DE PROGRAMA

GAROTOS DE PROGRAMA (My own private Idaho, 1991, New Line Cinema, 104min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Gus Van Sant, inspirado livremente em "Henry IV", de William Shakespeare. Fotografia: John Campbell, Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Bill Stafford. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Melissa Stewart. Produção: Laurie Parker. Elenco: River Phoenix, Keanu Reeves, James Russo, William Richert, Chiara Caselli, Flea, Udo Kier, Grace Zabriskie. Estreia: 12/9/91 (Festival de Toronto)

Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.

Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.


A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.

Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.

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