domingo, 15 de fevereiro de 2015

BELEZA ROUBADA

BELEZA ROUBADA (Stealing beauty, 1996, Fiction Films/France 2 Cinéma, 118min) Direção: Bernardo Bertolucci. Roteiro: Susan Minot, estória de Bernardo Bertolucci. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Pietro Scalia. Música: Richard Hartley. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Gianni Silvestri/Cinzia Sleiter. Produção executiva: Yves Attal. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Liv Tyler, Jeremy Irons, Sinéad Cusack, Rachel Weisz, Joseph Fiennes, Jason Flemyng, Jean Marais, Stefania Sandrelli. Estreia: 29/3/96

Durante as entrevistas de divulgação de "O pequeno Buda", estrelado por Keanu Reeves, o cineasta Bernardo Bertolucci não se cansava de dizer que seu filme seguinte teria que ser, necessariamente, um projeto pequeno, familiar, que não envolvesse as dificuldades logísticas de suas últimas obras - entre elas, o ambicioso "O céu que nos protege". Quando "Beleza roubada" estreou no Festival de Cannes de 1996, dois meses de ter chegado aos cinemas italianos, o mundo todo percebeu que ele falava muito sério. Simples e minimalista, a história da bela e inocente Lucy Harmon em busca da verdade sobre sua mãe suicida e do primeiro amor mostra um Bertolucci em registro discreto, a anos-luz do gigantismo de coisas como "O último imperador", que lhe rendeu 9 Oscar em 1988. Essa bem-vinda despretensão conquistou a simpatia da crítica e do público, que aprovou, entre outras coisas, a escolha acertadíssima de Liv Tyler para interpretar o papel principal. Com uma aura de pureza e inocência ao redor de um rosto deslumbrante, Liv - filha do vocalista da banda de rock Aerosmith, Steven Tyler - se desincumbe com graça e segurança de sua primeira protagonista, seduzindo o espectador logo nas primeiras cenas.

Ao som de Lizzy Phair e  sua "Rocket song", o público acompanha a chegada da bela Lucy, uma jovem americana de 19 anos, a uma afastada vila italiana de propriedade de Ian (Donald McCann), um artista plástico inglês que refugiou-se do mundo para levar uma existência tranquila ao lado da esposa, Diana (Sinéad Cusack) e dos amigos que frequentemente os visitam, como o poeta Alex (Jeremy Irons), que, contaminado pelo vírus da AIDS, passa seus últimos meses na companhia do casal. A visita de Lucy, porém, não é apenas um acontecimento social corriqueiro: com a desculpa de posar para uma escultura de Ian, a bela jovem tem também interesse em descobrir a verdade sobre sua paternidade, que ela sabe ter relação com um verão passado por sua mãe, uma recente suicida, no mesmo local da Toscana. Enquanto busca pistas que a levem à identidade de seu pai, ela passa a ter contato com o grupo de convidados excêntricos de Ian e Diana, que aproveitam ao máximo o calor da Itália e sua atmosfera altamente sensual. Envolvida pelo clima erótico do lugar, Lucy espera ansiosamente pelo reencontro com Niccólo (Roberto Zibetti), um flerte de adolescência que ela espera converter em seu primeiro homem.


Fotografada com extrema luminosidade por Darius Khondji - em um trabalho oposto ao que realizou no soturno "Seven, os sete crimes capitais" - a Toscana de Bernardo Bertolucci surge soberana diante dos olhos do público em cada cena de "Beleza roubada". As paisagens deslumbrantes combinam magistralmente com a beleza espectral de Liv Tyler, em uma composição irresistível que ilustra com perfeição os temas essenciais do filme: a busca pelo prazer, pelo amor e pela identidade. Narrado de forma poética - através de trechos de escritos da protagonista, do visual arrebatador e da relação estabelecida entre sexo e arte, com mostrado na festa da qual os personagens participam - o filme ressente-se apenas de um rimo pouco atraente. Ainda que seja bem mais ágil que muitos outros filmes do diretor, "Beleza roubada" empresta das produções europeias sua velocidade discreta em contar sua história, o que pode incomodar os espectadores mais afoitos.

Apoiado basicamente no trabalho de Liv Tyler - ainda inexperiente mas dotada de um carisma que ameniza suas falhas como atriz - "Beleza roubada" consegue alcançar seu maior objetivo (ser um filme pequeno, leve, discreto) sem maiores esforços. Experiente na direção de seus atores, Bernardo Bertolucci conduz a trama com mão leve, deixando que a ação transcorra sem pressa como um verão na Toscana. Tal clima transparece em cada sequência, mergulhando o espectador em uma história de gente normal passando por acontecimentos normais - que se engrandecem apenas graças ao visual estonteante imposto pela fotografia impecável. É um filme comum, capaz de agradar a quem procura se ver retratado nas telas. Se é que a beleza de Liv pode ser considerada comum.

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