quinta-feira, 7 de maio de 2015

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001, USA Films/Capitol Films, 137min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Julian Fellowes. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Anna Pinnock. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Hannah Leader. Produção: Robert Altman, Bob Balaban, David Levy. Elenco: Maggie Smith, Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Camilla Rutherford, Charles Dance, Tom Hollander, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillipe, Stephen Fry, Kelly McDonald, Helen Mirren, Clive Owen, Eileen Atkins, Emily Watson, Derek Jacobi, Richard E. Grant. Estreia: 07/11/01 (Festival de Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman) 

Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.

Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.


A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.

Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.

"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.

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