quarta-feira, 5 de março de 2014

O GAROTO DE LIVERPOOL

O GAROTO DE LIVERPOOL (Nowhere boy, 2009, UK Films, 98min) Direção: Sam Taylor-Johnson. Roteiro: Matt Greenhalgh. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Lisa Gunning. Música: Alison Goldfrap, Will Gregory. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barb Herman-Skelding. Produção executiva: Jon Diamond, Tim Haslam, Christopher Moll, Teresa Ross, Mark Woolley. Produção: Robert Bernstein, Kevin Loader, Douglas Rae. Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Kristin Scott-Thomas, Anne-Marie Duff, David Morrissey, Thomas Brodie-Sangster, David Threlfall. Estreia: 29/10/09

Qualquer pessoa minimamente informada culturalmente sabe das principais histórias ligadas aos Beatles, uma das mais famosas – senão A mais famosa – bandas da história da música popular do século XX. De seu nascimento na cidade britânica de Liverpool até sua dissolução em 1970 – depois de terem causado um furacão sem precedentes na indústria da música e do entretenimento – os fatos que cercaram a trajetória do grupo são quase parte de um inconsciente coletivo resultado de uma admiração que se transmite de geração em geração e que não dá sinais de arrefecer. Porém, mesmo com toda essa atenção a qualquer detalhe da vida de seus integrantes, volta e meia o cinema surge com algum filme que joga luz sobre fatos menos explorados da vida de algum dos ídolos. Foi isso que Ian Softley fez em 1994 com o pulsante “Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool” – que acompanhava os primórdios da banda em sua turnê em Hamburgo e contava a história da relação entre John Lennon e seu melhor amigo Stu Sutcliffe, que abandonou o grupo para ficar na Alemanha com a mulher que amava – e é isso que Sam Taylor faz em “O garoto de Liverpool” (título nacional um tanto óbvio que enfraquece o bem mais interessante “Nowhere boy” original). Ao narrar um episódio da adolescência de Lennon imediatamente anterior aos fatos mostrados por Softley – e de importância crucial para o futuro artístico e emocional do cantor, Taylor conquista o público por não seguir o caminho óbvio da condescendência e, assim, mostrar a ele um lado pouco conhecido do protagonista.
Interpretado pelo então estreante Aaron Johnson – que casou-se com a diretora (anos mais velha) após as filmagens e posteriormente adotou seu sobrenome – o John Lennon de “O garoto de Liverpool” não é aquele tornado célebre através das canções que se tornaram hinos internacionais, dos filmes que lotavam cinemas ou até mesmo das polêmicas declarações durante e pós sua permanência nos Beatles. O Lennon iluminado pelo roteiro de Matt Greenhalgh é um adolescente como tantos outros quaisquer que viviam pelas ruas de sua cidade natal matando aulas, se aventurando no teto de ônibus, flertando com as colegas e sonhando em ser Elvis Presley. Criado por sua tia, Mimi (Kristin Scott Thomas, sempre excelente atriz), Lennon frequentemente se vê em conflito com a vida rígida e regrada que ela lhe impõe, em especial depois da viuvez. Os confrontos entre a rebeldia adolescente de John e a sisudez clássica de Mimi acabam por abrir caminho para que o rapaz se veja diante de uma situação inusitada: o reencontro com sua mãe biológica, Julia (Anne-Marie Duff), irmã de Mimi, que o abandonou ainda criança, casou-se novamente e formou uma nova família. Surgindo como um oásis de compreensão e euforia na vida de John – em um radical contraste com sua rotina com a tia – Julia (dotada de um temperamento alegre e festivo que volta e meia dava lugar a crises de violenta depressão) é quem lhe dá o primeiro violão, lhe ensina os primeiros acordes e o empurra em direção à vida artística. Sua lua-de-mel com a mãe, porém, tem data de validade – e é a tragédia subsequente a essa história de redescoberta materna o cerne de “O garoto de Liverpool”.



Quem não conhece os detalhes da história do reencontro entre Lennon e Julia tem a vantagem de ser surpreendido pelo desenrolar da trama, repleta de reviravoltas dignas de um melodrama barato – mas que são tratadas com respeito e sobriedade pela direção correta de Taylor. Quem já tem conhecimento dessa fase da biografia do cantor, porém, não precisa sentir-se deixado de lado: o roteiro também encanta ao retratar um John Lennon bastante falível e dotado de defeitos que deram origem à sua persona artística (um certo narcisismo, uma rebeldia indomável, uma agressividade latente). Seu encontro com um jovem Paul McCartney, por exemplo, é repleto de um sentimento indisfarçável de admiração e inveja – uma mistura que acabou por levá-los à consagração mundial com uma parceria musical em uma impressionante coleção de sucessos. Mesmo inexperiente, Aaron Johnson desincumbe-se da inglória tarefa com maestria: apesar de não ser fisicamente parecido com Lennon, o jovem ator conquista o espectador em poucos minutos, captando a essência do protagonista com segurança de veterano.
Sem apelar para o truque barato de buscar a cumplicidade da plateia utilizando-se dos hits dos Beatles – cujo nome, aliás, não é citado em momento algum da narrativa – Sam Taylor optou pelo caminho mais árduo e foi extremamente feliz. Retratando John Lennon como a pessoa comum que ele era na adolescência e não como o ícone e o ídolo que ele tornou-se poucos anos depois, ela cria uma identificação imediata entre personagem e público – que vê, diante de si, um jovem torturado pelo sentimento de rejeição ao mesmo tempo em que tem seu amor disputado por duas mães (cada uma, à sua maneira, responsável por moldar partes de sua personalidade). Já seria um drama interessante se o protagonista fosse alguém normal – principalmente porque a batalha entre Anne-Marie Duff e Kristin Scott Thomas é fascinante. Sendo ele um dos maiores músicos da história o resultado fica ainda mais empolgante. “O garoto de Liverpool” é um filme delicado, simples e eficiente, que joga luz em um período fundamental da vida de Lennon – e apresenta, em seus créditos finais, a bela “Mother”, que ilustra com perfeição toda a história contada em seus 97 minutos anteriores.

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