segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MATO SEM CACHORRO

MATO SEM CACHORRO (Mato sem cachorro, 2013, Lupa Filmes/Mixer/Globo Filmes, 101min) Direção: Pedro Amorim. Roteiro: André Pereira, argumento de Vitor Leite, colaboração de Pedro Amorim, Malu Miranda. Fotografia: Gustavo Habda. Montagem: Pedro Amorim, Natara Ney. Música: Rica Amabis. Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira/Odair Zani. Produção executiva: Eliane Ferreira, Lili Nogueira. Produção: Malu Miranda. Elenco: Bruno Gagliasso, Leandra Leal, Danilo Gentili, Gabriela Duarte, Angela Leal, Rafinha Bastos, Flávio Migliaccio, Joaquim Lopes, Enrique Diaz, Sandy, Sidney Magal, Fausto Fawcett. Estreia: 04/10/13

No cinema nacional, a menção ao gênero comédia romântica imediatamente remete a tramas que giram em torno de mulheres desesperadas atrás de um casamento ou da independência sexual. Em termos de bilheteria dá certo, como mostram os números de filmes como "De pernas para o ar" e "Os homens são de Marte... e é pra lá que eu vou". Paradoxalmente, porém, falta nessas produções tanto o ponto de vista masculino (os homens são, via de regra, tratados como coadjuvantes de luxo) quanto o romantismo (qualquer momento em que ele poderia aparecer é normalmente substituído por piadas, muitas vezes sem graça). São essas lacunas que "Mato sem cachorro" tenta preencher. Escrito e dirigido por Pedro Amorim, o filme estrelado por Bruno Gagliasso e Leandra Leal consegue a proeza de fazer a plateia rir sem esquecer seu principal objetivo: contar uma história de amor. Equilibrando momentos de delicadeza com outros de humor quase escatológico, seu roteiro conquista o público justamente pela ousadia de misturar elementos tão díspares em um gênero tão perigosamente sujeito a ficar engessado a receitas insossas. De personalidade própria e humor particular, "Mato sem cachorro" é um achado dentro do cinema comercial brasileiro.

A trama em si é simples e direta como convém: o produtor musical Deco (um Bruno Gagliasso leve e distante dos personagens densos a que o público está acostumado) e a diretora de rádio Zoé (Leandra Leal a quilômetros de distância da assustadora Rosa de "O lobo atrás da porta") se apaixonam perdidamente no dia em que conhecem Guto, um adorável cãozinho que sofre de uma condição rara chamada narcolepsia canina - que o faz desmaiar a cada estado de maior excitação. Os três passam a formar uma família feliz até que, um ano e meio depois, o romance acaba e deixa o rapaz na pior, morando com o primo Leléo (Danilo Gentili, dono de algumas das melhores piadas mas por vezes um tanto exagerado no humor rasteiro) e incapaz de seguir a vida. Ao descobrir que Zoé está de namorado novo - o dono de uma estética canina chamado Fernando (Enrique Diaz, sensacional) - Deco resolve tomar o que é seu e sequestra Guto. As consequências de tal gesto - que o obrigará inclusive a produzir a banda do irmão de Zoé, um achado musical responsável por alguns dos melhores momentos do filme - tanto podem aproximá-lo da mulher que ama quanto afastá-los de vez. E, no meio do caminho, Amorim aproveita para desconstruir algumas imagens quase intocáveis do mundo artístico nacional.


Da cantora Sandy fazendo o papel dela mesma - e brigando com um policial durante um teste de bafômetro - até Gabriela Duarte - famosa por papéis românticos e aqui encarando uma desbocada pouco afeita a sutilezas - "Mato sem cachorro" faz desfilar na tela rostos conhecidos do grande público em aparições rápidas e eficientes em despertar o riso ou a surpresa. Angela Leal (mãe de Leandra na vida real) interpreta a mãe de Zoé, Rafinha Bastos surge em cena como um médico veterinário pouco paciente, Marcelo Tas vive os dois diretores gêmeos da rádio onde trabalha a protagonista e até mesmo Elke Maravilha dá as caras, no papel sem falas da senhora idosa que empresta o prédio para os ensaios da banda produzida por Deco - despida do glamour e dos excessos que marcaram sua carreira, Elke está irreconhecível (e é um atrativo a mais para um filme que ainda conta com Sidney Magal e Fausto Fawcett como eles mesmos). Não bastasse tudo isso, o trabalho de Amorim é uma comédia realmente engraçada, um romance que funciona e tem uma trilha sonora deliciosa.

Misturando Sidney Magal, Waldick Soriano, Radiohead e Sandy & Junior, Wando, Joan Jett e John Lennon no mesmo balaio, "Mato sem cachorro" assume sem medo sua veia pop, buscando uma aproximação direta com o público através de seus ícones e referências. Algumas vezes escorrega no excesso de palavrões desnecessários e nem sempre explora a contento algumas subtramas que poderiam ser interessantes (caso da radialista interpretada por Letícia Isnard e o medo que tem dos ouvintes mais agressivos), mas cumpre com louvor a promessas que faz. Além do mais, tem um atrativo extra para os amantes de cães, que irão se esbaldar com o carisma de Guto e as aventuras pelas quais ele obriga seus donos a passarem para encontrar um final feliz. Um raro exemplar de cinema comercial brasileiro que não deixa em seu final um sentimento de frustração. Vale a pena experimentar e se divertir nem que seja para comprovar o talento imenso de seus dois atores centrais.

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