segunda-feira, 25 de maio de 2015

O HOMEM QUE COPIAVA

O HOMEM QUE COPIAVA (O homem que copiava, 2003, Casa de Cinema de Porto Alegre/Sony Pictures, 124min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth/Silvia Guerra, Bolivar Lauda, Marnei Pereira. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Luana Piovani, Pedro Cardoso, Júlio Andrade, Paulo José. Estreia: 13/6/03

Depois de testar seu talento como realizador de longas-metragens com o simpático e despretensioso "Houve uma vez dois verões", o cineasta gaúcho Jorge Furtado - conhecido pela coleção de prêmios acumulados pelo curta "Ilha das flores" - fez o que todo mundo esperava que ele fizesse: deu mais um passo à frente em sua brilhante carreira. Mais ambicioso - em termos artísticos e narrativos - e mais comercial - por ter em seu elenco nomes conhecidos nacionalmente, como Lázaro Ramos, Leandra Leal e Luana Piovani - "O homem que copiava" consegue ser ainda melhor do que o primeiro filme de Furtado, com uma trama inteligente e repleta de desdobramentos que torna impossível ao espectador adivinhar o que vem pela frente. Utilizando-se de diferentes linguagens para contar sua história de amor e contravenção, Furtado apresenta um misto de comédia, romance e filme policial que lhe assegura, sem favor nenhum, como um dos mais criativos cineastas brasileiros de sua geração - e isso sem deixar de lado seu estilo próprio e suas raízes.

O personagem central do filme é André (Lázaro Ramos), um jovem de classe média baixa que mora em Porto Alegre e trabalha como operador de fotocopiadora - ou simplesmente como "o cara do xerox". Ganhando um salário que não lhe permite quase nenhuma espécie de luxo, ele sonha ganhar a vida como desenhista, enquanto leva uma rotina pacata entre o trabalho e o lar, que divide com a mãe e a paixão por Sílvia (Leandra Leal), uma jovem que mora no prédio em frente ao seu e que espiona com seu binóculo comprado com a economia de um ano de salário. Tentando aproximar-se da garota - que trabalha em uma loja de roupas femininas - ele acaba caindo na tentação de falsificar uma nota de 50 reais com a nova máquina de cópias coloridas de seu patrão. O que poderia ser apenas uma escorregadela ética acaba, porém, se transformando em algo maior quando entra em cena o ambicioso e pouco inteligente Cardoso (Pedro Cardoso, sensacional), que, na tentativa de seduzir a bela Marinês (Luana Piovani) - colega de André - convence o rapaz a manter-se no ramo. Quando o tímido e desajeitado homem da copiadora troca a nota de 50 reais em um estabelecimento comercial, tem início uma série de eventos imprevisíveis e perigosos que ameaçam a integridade dos quatro.


Imprevisível e extremamente divertido - Furtado é um mestre em diálogos inteligentes e bem-humorados - "O homem que copiava" funciona em todos os níveis narrativos que apresenta, graças ao ritmo ágil imposto pela edição do competente Giba Assis Brasil (também cineasta) e ao roteiro recheado de reviravoltas, desvios e saltos cronológicos que, ao invés de confundir o público, apenas aumenta sua curiosidade em relação ao destino de seus protagonistas - todos eles fracassados em maior ou menor grau, e todos eles em busca da redenção financeira que seu ato desonesto pode lhes acarretar. Em um de seus maiores méritos, o roteiro abdica de qualquer tipo de julgamento moral, cobrindo André e companhia de um manto de isenção que praticamente ignora o fato de que todos estão cometendo graves infrações à lei (acredite, falsificar uma nota de 50 dólares é apenas o começo de tudo). Em especial dando à André uma aura de inocência quase infantil - característica que Lázaro Ramos aproveita com extrema sensibilidade - o filme foge das discussões sociopolíticas para manter seu foco no que realmente interessa: uma história boa o bastante para prender o espectador do início ao fim.

E se boa parte dos méritos de "O homem que copiava" é do Jorge Furtado roteirista, não é possível esquecer que também digno de elogios é o Jorge Furtado diretor de atores: até mesmo Luana Piovani está convincente em cena, na pele da exuberante Marinês, objeto de desejo do ambicioso Cardoso e que acaba entrando no esquema como parte importante do desenrolar da trama. Leandra Leal também se destaca, criando uma Sílvia aparentemente passiva que, em um momento crucial, se transforma em uma mocinha das mais interessantes do cinema nacional moderno - tudo sem perder a coerência dramática ou o nível da interpretação. E Pedro Cardoso, mesmo repetindo o estilo de interpretação que lhe deu fama, sai-se extraordinariamente bem, com uma química impecável com Lázaro Ramos em cenas memoráveis, de um humor sutil e perspicaz.

Empolgante, brilhante e divertido, "O homem que copiava" é um dos melhores filmes brasileiros desde a retomada, apesar de muitas vezes ser esquecido nas listas feitas por críticos e ditos especialistas. A anos-luz da estética marginal do cinema de Chico Assis ou das produções pasteurizadas da Globo Filmes, é um meio-termo altamente satisfatório entre os dois estilos. É popular sem ser medíocre, é inteligente sem ser pedante e é bem acabado sem deixar que isso se torne seu maior atrativo. É, enfim, um programaço.

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