terça-feira, 21 de março de 2017

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

Nenhum comentário: