segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

MEDO

MEDO (Fear, 1996, Imagine Entertainment/Universal Pictures, 97min) Direção: James Foley. Roteiro: Christopher Crowe. Fotografia: Thomas Kloss. Montagem: David Brenner. Música: Carter Burwell. Figurino: Kirsten Everberg. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/D. Fauquet-Lemaitre. Produção executiva: Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ric Kidney, Karen Snow. Elenco: Mark Wahlberg, Reese Witherspoon, William Petersen, Ammy Brenneman, Alyssa Milano, Christopher Gray, Todd Caldecott. Estreia: 12/4/96

Há ecos nítidos de "Cabo do medo", de Martin Scorsese, na maneira como o protagonista masculino de "Medo" - refilmagem americana livre de um filme indiano chamado "Darr", lançado em 1993 - persegue obsessivamente a jovem por quem se diz apaixonado. Também há citações de "Sob o domínio do medo", de Sam Peckinpah, no clímax do filme de James Foley - que já tinha no currículo filmes respeitados como "Caminhos violentos" (86) e "O sucesso a qualquer preço" (92) e produções comerciais menos elogiadas, como "Quem é essa garota?" (87), estrelado por Madonna. Tais referências, no entanto, não impedem que seu filme, uma história banal de suspense, ultrapasse as armadilhas que o roteiro repleto de clichês espalha em seu caminho. Com aparência de telefilme e contando com dois jovens atores ainda em busca de um lugar ao sol em Hollywood, a obra de Foley surpreende apenas por conseguir manter uma tensão constante mesmo com todos os furos do roteiro, que trata seus personagens sem muita profundidade.

Ainda antes de tornar-se famosa como a patricinha de "Legalmente loira" e a oscarizada atriz de "Johnny & June", uma jovem Reese Witherspoon lidera o elenco como Nicole Walker, uma adolescente órfã de mãe que vai morar com o pai, Steve (William Petersen), a madrasta Laura (Amy Brenneman) e o irmão caçula Toby (Christopher Gray) em uma segura casa nos arredores de Seattle. Rebelde como é comum na sua idade, ela cai de amores pela pessoa mais errada possível, o misterioso e sedutor David McCall (Mark Wahlberg, dois anos antes do estouro de "Boogie nights" e já conhecido como modelo de cuecas Calvin Klein e cantor de rap). Evasivo a respeito de suas origens, David aparenta ser um rapaz perfeito e romântico, seduzindo a garota sem maiores esforços. O romance dos sonhos, porém, logo mostra alguns problemas quando o rapaz se mostra extremamente possessivo e violento. Percebendo o tamanho da encrenca, Steve tenta afastar a filha de David, o que provoca ainda mais sua fúria descontrolada: em pouco tempo a família toda vira alvo do psicótico e raivoso príncipe tornado sapo, que se une a seus amigos do submundo para aterrorizar a todos.


Sem preocupar-se em dar profundidade a seus personagens, o roteiro de Christopher Crowe opta por acentuar o clima de suspense e violência da trama, enfatizando a psique obsessiva e cruel de David a cada cena - e mesmo assim não conseguindo fugir da superficialidade de suas escolhas. As intrigas de David para jogar Nicole contra o pai, por exemplo, são de uma simplicidade franciscana e suas consequências nunca são utilizadas com todas as possibilidades que poderiam. A própria personalidade doentia do rapaz jamais é explorada a contento, tornando-o apenas mais um vilão cuja única finalidade é ameaçar a paz da soberania familiar de um núcelo já problematizado. Mark Wahlberg funciona no papel apesar de suas limitações como ator, conseguindo transmitir (ao menos dentro do possível) a tensão requerida em seus momentos de ira, especialmente no terço final, quando deixa a máscara de bom moço cair definitivamente - e mostrar o corpo em boa parte do filme ajuda a disfarçar a fragilidade de seu desempenho nas cenas que exigem maior dramaticidade. O mesmo não pode ser dito de Reese Witherspoon, que mesmo com uma personagem que poderia facilmente despertar a antipatia do espectador - sua rebeldia sem causa e sua ingenuidade exagerada podem irritar aos menos pacientes - é capaz de convencê-lo da veracidade de suas atitudes, mesmo as erradas. Em pouco tempo ela estaria em filmes mais interessantes e mostraria a excelente atriz que é.

Para quem procura um filme de suspense e não se importa com alguns furos de roteiro e uma certa previsibilidade, "Medo" é uma opção bastante decente. Nunca ultrapassa seus limites puramente comerciais nem tenta ser mais do que é, e essa despretensão acaba por ajudá-lo. Mergulhado nos clichês - os vilões usam drogas e ouvem rock pesado, além de se vestirem de preto, a madrasta com quem a protagonista tinha problemas acaba se tornando sua melhor amiga, gente inocente morre violentamente em prol de um bom drama - o filme de James Foley até pode ofeneder aos mais exigentes, mas segura tranquilamente uma sessão descompromissada num sábado chuvoso.

Um comentário:

Kahlil Appel disse...

Gosto bastante desse filme. A presença ameaçadora de MArk Walhberg sempre me deu calafrios.

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/